Fim de festa - Hélio Doyle
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 25 de janeiro de 1999
Hélio Doyle 
A discussão que vem sendo feita em torno da crise econômica parte geralmente do princípio de que o modelo adotado pelo Brasil nada tem de errado. Pode ter um ou outro probleminha, necessitar de alguma correção, admite-se, mas em essência é bom e o único viável na realidade da globalização. Todo raciocínio é desenvolvido a partir desse dado considerado irreversível: a política econômica para o Brasil é esta e ponto final.
Daí fica fácil justificar tudo, até o confisco de pensões e aposentadorias de servidores públicos, ou chamar de privilegiados funcionários que trabalharam 35 anos e recebem R$ 3 mil por mês de aposentadoria. Nada mais coerente com a política econômica aplicada no Brasil.
Como é coerente com essa política a ameaça de recessão, o aumento do desemprego, a deterioração crescente das condições de vida, o sucateamento da indústria, a degradação da saúde pública, o desestímulo à pesquisa científica, o crescimento da criminalidade. É indissociável dessa política econômica, a submissão às decisões dos centros financeiros internacionais, a renúncia à soberania e a vulnerabilidade ao capital especulativo.
Por que, então, continuar com ela? Essa política é boa para alguns poucos que ganham com a especulação, que prestam consultorias milionárias, que fazem a intermediação de excelentes negócios, que alternam postos de comando no governo e bem remunerados cargos na iniciativa privada ou administram sobras de campanhas eleitorais. Esses - e não os aposentados - é que são os privilegiados que atrapalham o desenvolvimento.
O neoliberalismo tem de apresentar uma possibilidade real de superação da situação atual e mobilizar seu aparato de convencimento para mostrar que tem condições de resolver os problemas dos países subdesenvolvidos. Caso contrário, a América Latina poderá ser palco nos próximos anos de um forte movimento de contestação às políticas internacionais.
A eleição do coronel Hugo Chávez na Venezuela foi um primeiro sinal. No Chile, as eleições deste ano podem ser influenciadas não só pelo Caso Pinochet como pelo empobrecimento do país. No Brasil, se continuar desse jeito, ninguém mais vai achar que o presidente da República é a melhor alternativa para administrar a crise.


