FIM DA TERRA PROMETIDA Água vai levar mais de um século de história
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sábado, 28 de setembro de 2002
Maigue Gueths<br> Equipe da Folha 
No quintal de casa, Margarida Stocco Gaio, 80 anos, curva-se para entrar embaixo da parreira e mostrar a marca feita pelos técnicos da Sanepar, que aponta a altura da água da futura represa Piraquara II, que atingirá não apenas parte de área cultivável de sua propriedade, mas também a casa - que era do sogro e foi construída ''há uns 100 anos''. ''Eu não quero sair daqui, mas se não tiver outro jeito...'', resigna-se.
Seus avós fazem parte do grupo de 65 famílias que fundaram a colônia, vindos da região de Trento, na Itália. ''Quando eles chegaram era só mato. Abriram tudo na base da enxada, cada um pegou um lote e começou a plantar.'' Além da casa, os 10 alqueires de Margarida devem ficar embaixo da água. Terra onde ela planta milho, feijão, batata, arroz e cria pequenos animais.
É esta a produção de praticamente toda a população local, que cultiva para consumo próprio e só comercializa o que sobra. Alguns fazem queijo, doces ou vendem leite. Outro que acredita que vai perder toda sua plantação é Henrique Gaio, 68 anos. ''Eles vão ter que me pagar um ordenado para viver'', diz, lembrando que chega a ganhar até R$ 500,00 por mês com a venda de sua produção. Ele, assim como os demais moradores, desconhece quanto será pago de indenização.
Uma das moradoras mais revoltadas é Araci Biss de Oliveira Garbuio, 75 anos, que nasceu, cresceu, casou-se e criou quatro filhos na região. ''Eles entraram na minha terra para fazer a medição, nem pediram permissão e ainda quebraram todo meu milho'', reclama. A água não vai atingir sua casa, mas inviabilizará a produção na maior parte do terreno. ''Eu não queria sair, estou aqui porque gosto de lidar com a terra. Mas meus filhos falaram que se forem fazer a barragem, é lei e eu vou ter que sair.''
''Além das 90 famílias que vão ter parte dos terrenos atingidos, um número bem maior de pessoas será atingido indiretamente'', diz a técnica em Saneamento Tina Medeiros, 31 anos, que tem uma propriedade no local há sete anos. Um dos problemas refere-se ao acesso, pois muitas ruas podem ficar embaixo da água. Os colonos também temem mudanças climáticas, já que desde a construção da primeira represa do Rio Piraquara o local passou a ser atingido por fortes cerrações.
Lúcia Gaio Jess, 46 anos, nascida na região, tem ainda outra preocupação. É ela quem cuida da Igreja Nossa Senhora de Assunção, construída em 1878 e que guarda uma estátua original, trazida pelos imigrantes da região da Cracóvia. ''Parece que a água vai chegar até quase a porta da igreja'', diz.


