FIM DA INFÂNCIA? - Alfabetização começa aos 4 anos
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quarta-feira, 11 de julho de 2007
Marco Feltrin<br>Reportagem Local 
Em um mundo de crianças cada vez mais precoces, pais se perguntam: com quantos anos meu filho deve aprender a ler e a escrever? A psicopedagoga Renata Savastano Ribeiro Jardini é defensora do método ''Boquinhas na Educação Infantil'', que prevê alfabetização de crianças a partir dos 4 anos. Ela falou à FOLHA sobre o método que apresentará durante palestra no Didática 2007, evento que reúne especialistas em educação infantil nos dias 19 e 20 de julho, no Teatro Marista.
Como funciona essa alfabetização de crianças a partir dos 4 anos?
A metodologia das boquinhas, como é chamada, é um método multisensorial, que trabalha o som, a articulação da boca e as letras. A partir de 4 anos, a criança já tem condições neurológicas para começar o processo de alfabetização. Com essa idade já podemos estimulá-las para que elas evoluam e completem o processo quando chegar aos seis anos. São desenvolvidas várias atividades de pré-requisito, como consciência corporal, habilidades visiomotoras. O grande ganho deste trabalho é com a consciência fonêmica e fonoarticulatória, que faz a criança perceber o gesto da boquinha que está sendo dito enquanto eu falo a palavra. É um aprendizado totalmente natural, porque vem de pressupostos da fala.
Existem dados que comprovem a eficácia do método?
Foi aplicado um projeto piloto com 200 crianças a partir de 5 anos em Ribeirão Bonito (SP). Os resultados obtidos em dois meses eram conseguidos anteriormente em 12 meses. Essas crianças que chegaram à escola sem ter noção nenhuma de letra, já conseguem entender como funciona o alfabeto, como se formam as palavras. Não por decoreba, mas por prazer, entendendo como é o processo da leitura escrita. O mais interessante de ver é que os professores estão muito motivados, porque também querem resultados.
Os professores estão preparados para oferecer este método?
De uma maneira geral, não estão. A formação deles deveria incluir noções de fonética, de articulação, mas não é a realidade brasileira. A gente vê que o professor sai para ser um alfabetizador e muitos não sabem nem escrever direito. O ideal seria capacitar esses professores durante a graduação. Mas entre o ideal e o real, o governo tem sequelas na formação acadêmica. A gente tentou as vias governamentais, mas não é tão simples assim. Então estamos fazendo o gota-a-gota, oferecendo o curso nas escolas, e a resposta tem sido muito boa.
Alguns especialistas defendem que, quanto mais precoce a alfabetização, maior a chance de a criança perder o interesse pelo estudo no futuro. O que você pensa sobre isso?
Quem fala isso está apoiado em bases muito tradicionais, aquele ensino extremamente convencional. Uma criança que não consegue ser alfabetizada vai ter desinteresse pela escolaridade se não tiver a base. Não acredito que o desinteresse esteja relacionado à alfabetização precoce. Muito pelo contrário. Se perguntar para qualquer criança, nenhuma quer ficar sem aprender a ler e a escrever. O que elas não querem é passar pelas humilhações que têm passado, ficando até três, quatro anos na mesma série e chegando à conclusão de que são incapazes. Essa é a vergonha nacional que as estatísticas mostram.
A internet está cada vez mais presente na vida das crianças. Isso prejudica o aprendizado da língua portuguesa?
A língua portuguesa nunca vai se descaracterizar porque as pessoas conversam de forma diferente no MSN. Pelo contrário, o MSN está mostrando que mais brasilieiros têm usado a leitura escrita para se comunicar. Todas as tecnologias têm de vir para a escola. Se não vier, a criança vai se desinteressar, porque a realidade não é essa. Então a escola precisa se adequar à realidade, não cortar a informação da criança. Qualquer criança de quatro anos sabe mexer em um computador, e não vejo nada de mau nisso.


