Filosofia - Pela terceira via
PUBLICAÇÃO
domingo, 27 de dezembro de 2015
Loriane Comeli<br> Reportagem Local 
Definindo-se politicamente como um libertário, defensor do capitalismo e do anarquismo, o professor de Filosofia da Universidade Estadual de Londrina (UEL) Aguinaldo Pavão lançou recentemente um livro tão polêmico quanto suas ideias, porém, com um texto leve e bem humorado: trata-se de "Chope Filosófico" (Londrix, 2015), uma coletânea de 56 artigos já publicados em seu blog. Além de política, fala sobre aborto, pena de morte, drogas, religião, futebol, amor, amizade.
Gaúcho, radicado em Londrina há 20 anos, Pavão é um crítico ferrenho da esquerda, que na sua opinião limita o empreendedorismo e aumenta cada vez mais o tamanho e a dependência do Estado, diminuindo, assim, liberdades. E acredita que os próprios empresários, na intenção de não enfrentar a concorrência, preferem se associar ao Estado: "Os grandes capitalistas não defendem o capitalismo. O capitalismo, na verdade, interessa talvez muito mais aos pobres do que aos grandes".
Na mesma medida, revela ojeriza aos conservadores, que, argumenta, tolhem as liberdades comportamentais, manifestando-se claramente favorável ao aborto e à liberação das drogas. Nesta entrevista, o professor também falou sobre impeachment, corrupção e o cenário universitário.
"Chope filosófico" é um livro de filosofia? Como o senhor o define?
Eu não considero que seja um livro de filosofia. Acho que é um livro que trata de temas que a filosofia também trata. A filosofia trata de temas gerais da existência humana. Então, neste caso, ele tem em comum a temática filosófica, mas tem um modo de tratar esses temas que é um modo não acadêmico, não profissional. E tem alguns temas no meu livro que a filosofia nem tratou, que, aparentemente, não têm nada a ver com filosofia, como um texto sobre futebol. É um livro que fala sobre filosofia, certamente, mas não é filosófico do início ao fim.
Que tipo de leitor pode se interessar?
Eu acho que qualquer pessoa pode ter interesse. Não é um livro acadêmico, não está restrito à academia, a quem tem interesse em fazer um curso de Filosofia, a quem está na área de humanas, a quem está na universidade. É um livro que trata de vários assuntos e, então, acho que qualquer pessoa pode vir a se interessar porque os temas que são tratados ali como futebol, amor, amizade, liberdade, aborto, Deus são temas que todos têm interesse e tratados com uma linguagem bem mais acessível. Inclusive eu acho que a linguagem da filosofia deveria ser mais acessível, poderia se soltar mais. É um livro que tenta diminuir o índice de sisudez da figura do filósofo.
Aliás, o senhor coloca um pitada de humor nos seus textos.
Sim, faço isso. Seria muito interessante que eu conseguisse fazer isso também com os textos mais sérios. Eu tenho outro livro publicado "O mal moral em Kant" (CRV, 2011) que ali é um Aguinaldo sisudo, sério, citações e tal... Falando da experiência de dar aulas: se eu comparar minhas aulas no início, quando eu cheguei na UEL, com esses últimos anos, as aulas eram um sofrimento para os alunos - ainda devem ser -, mas, com o tempo você vai ficando mais solto. Eu acho que seria bom a filosofia ser mais solta. Um desses filósofos que está na capa, o Montaigne, ele escreveu filosofia e o modo de ele tratar filosofia é muito mais espontâneo. Qualquer pessoa, se for capaz de ler literatura, é capaz de ler o Montaigne e vai adorar. Acho que a filosofia joga um pouco contra a sua popularidade.
Também há vários posts sobre literatura.
Se eu não fizesse Filosofia, eu faria Letras. Eu gosto muito de literatura. Eu acho que a filosofia e a literatura são áreas que têm afinidade muito íntima. A filosofia precisa ser oxigenada pela imaginação e a literatura fornece exemplos, tem vivacidade, toca, fala da vida, da natureza humana.
O senhor trata de temas polêmicos, como aborto, pena de morte, maconha, relações homoafetivas, religião. A intenção foi essa, foi polemizar?
Foi tudo não intencional porque, como são textos do blog, eram coisas que eu escrevia com a intenção de "vai ter um ou dois amigos que vão ler" e eu quero também escrever, exercitar e organizar as ideias. O livro nasce de maneira bem mais espontânea. Não fiquei pensando em polemizar... Eu acho que a minha natureza alguns amigos falam isso é espontaneamente polêmica. E nestes temas que você mencionou, eu estou realmente tomando uma posição que muitos não vão concordar. Mas também não acho que estou tomando uma opinião como algo religioso, como se eu não pudesse estar errado... Quando eu comecei a estudar filosofia, eu achava que se minha opinião fosse boa a dos outros tinha que estar errada. Hoje tenho uma inclinação mais relativista. Tenho opinião totalmente favorável à liberação das drogas, sou a favor do aborto, está tudo explicitado no livro, mas não acho que isso seja algo assim matemático, que tem ser acatado. É minha opinião.
O senhor professa alguma religião?
Eu normalmente uso o termo agnóstico, mas é um termo acadêmico para descrever alguém que é descrente, que não acredita em nenhuma forma de solucionar, em termos definitivos, o problema da existência de Deus, de obter uma prova da não existência. Em termos práticos e morais, eu sou ateu. Eu não acredito. A maioria dos grandes filósofos acredita em Deus e apresentava argumentos em favor da existência de Deus, mas eu acho que não são bons argumentos. Sou um completo descrente.
Politicamente, conforme dois artigos que estão no livro, o senhor já se definiu como "liberal" (2008) e, mais recentemente, se diz anarquista (2013). Como o senhor se define?
São coisas bem diferentes e em pouco tempo mudei de opinião. Um dos temas que atravessam o livro do início ao fim é a liberdade. Eu tenho uma compreensão bem simples, minimalista da liberdade: liberdade é fazer aquilo que você quiser desde que não impeça a liberdade do outro. Quando eu escrevi esse post, "Como me tornei um liberal"... porque eu não era liberal, né? Eu fui um estudante de esquerda, participava de DCE, era alguém que acreditava na revolução, que lia Marx, vivia com o livro do Marx como se fosse um evangelho. Com o tempo, fui me afastando disso, passei a ter contato com outras leituras e também com amigos. Eu cito a importância de um amigo meu e eu acho que ele ainda é liberal. Eu deixei de ser liberal. O liberal é aquele que acredita que o Estado é necessário apenas para garantir a segurança e o resto os indivíduos devem estabelecer, por conta própria, contratos e acordos voluntários como senhores das suas vidas. Liberalismo é uma vertente em favor da liberdade de uma maneira bastante instigante. E o anarquismo, que é o anarcocapitalismo, não é o anarquismo de esquerda, claro, acredita que se você realmente acredita na liberdade você não vai precisar do Estado para nada. O Estado vai ser sempre um empecilho à liberdade. Se houver um mínimo de Estado vai sempre haver um mínimo de obstáculo à liberdade. Acho que isso é a coisa mais polêmica do livro...
É possível defender o anarquismo para fora do campo das ideias?
O anarquismo se pensa em termos gradativos. Ele existe aqui, por exemplo, quando nós estamos fazendo uma coisa que nós queremos, de acordo com nossa vontade. Tudo o que se imaginar que é feito de acordo com a vontade dos indivíduos, que não existe a interferência coercitiva de um terceiro, isso é uma relação que eu chamo de anarquista. Mas, na sociedade, tem alguém que não foi voluntariamente chamado a participar da relação, mas impõe que você deve pagar 27,5% de imposto... Eu concordo que o anarquismo é algo colocado no plano das ideias e a sua realização, na história, talvez seja para daqui a 500 mil anos, mas se sente o anarquismo. É uma relação espontânea com os outros.
Mas o Estado está presente em tudo, em muitas relações. Também se sente o Estado...
O Estado está totalmente presente. O Estado nacional, que muitos disseram, algumas décadas atrás, que por causa da globalização, estaria em xeque. Não está. Tudo depende dos estados nacionais. Qual o poder coercitivo da ONU? Muito pequeno. Inclusive é dependente das forças dos estados nacionais. Inclusive eu diria que os estados estão aí e fortes. No Brasil, nos últimos anos, ficou cada vez maior e mais forte. O que significa, na minha opinião, que nós perdemos em liberdade.
O Estado brasileiro cresceu nos últimos anos?
O Estado aumentou, aumentou muito e aumentou de maneira ideológica. Se considerar o período da ditadura militar, a presença do Estado na economia era maior, mas hoje o Estado é maior na mente das pessoas. As pessoas acreditam que se precisa do Estado, que o Estado tem que auxiliar, criar condições favoráveis para que índios, negros, pessoas desfavorecidas tenham determinadas vantagens, que eles chamam de políticas afirmativas, a ideia de que as pessoas não tenham condições de prosperar sem Estado, mas as pessoas precisam é de liberdade para poder trabalhar, para buscar de maneira autônoma seu caminho. Eu acho que existe uma crença no Brasil... Veja, os empresários também acreditam muito no Estado...
Por que precisam de incentivos fiscais e outras benesses?
Exato. Em um dos posts, eu digo que os capitalistas, os grandes empresários, num certo sentido, não defendem o capitalismo. Porque o capitalismo é um sistema de liberdade absoluta limitada apenas pela liberdade dos outros. Imagine se um grande empresário vai ter interesse que um outro grande empresário se instale na região em que ele desenvolve seus negócios. É muito mais interessante para esse grande empresário que ele se associe ao Estado e aprove uma lei que restrinja a concorrência. Então, os grandes capitalistas não defendem o capitalismo. O capitalismo, na verdade, interessa talvez muito mais aos pobres do que aos grandes.
Mas não é essa a leitura dos intelectuais brasileiros.
A intelectualidade e academia brasileiras são esmagadoramente de esquerda. Eu convivo no Centro de Ciências Humanas da UEL. No Departamento de Filosofia, a maioria dos meus colegas é de esquerda. Mas se você tomar a UEL e a universidade pública brasileira ela é completamente de esquerda.
Isso é ruim?
É péssimo. Deveria ter mais pluralidade. Deveriam ser estudadas mais outras correntes filosóficas e políticas.
Como seus colegas reagem ao seu trabalho e seu pensamento?
Alguns torcem o nariz e ficam longe para "não ter nenhum contágio com isso que está escrito". Mas tenho alguns amigos que são de esquerda, acreditam no socialismo e até no governo Dilma, que eles conversam comigo, que acham provocativo, acham que estou errado, mas são curiosos. Isso seria uma coisa interessante na universidade. Mas quando falo que na universidade há um problema é porque sequer se estudam autores. Por exemplo, tem um autor chamado Robert Nozick (1938-2002), é um grande filósofo americano, que criou a expressão minimal state, o Estado mínimo, que as pessoas não conhecem. A tradição libertária americana, as pessoas não conhecem. Não tem na biblioteca da UEL livros do Murray Rothbard (1926-1995), um dos pais do anarcocapitalismo. Não tem. No curso de Economia eu converso com alunos que assistem a minhas aulas em outros cursos e eles não estudam Von Mises (1881-1973), um grande economista austríaco.
Voltando a falar de posição política, sendo um anarcocapitalista, onde o senhor se situa, entre a direita e a esquerda?
Eu escrevi um post sobre isso. Eu concordo que esquerda e direita são palavras que explicam algumas coisas, mas as posições políticas não se reduzem a isso. A esquerda defende as liberdades comportamentais. Em geral, defende que não deve haver nenhuma lei que restrinja os direitos das pessoas pelo fato de serem homossexuais, o direito das mulheres fazerem aborto, que algumas drogas devem ser descriminalizadas, a separação forte do Estado e da Igreja. Mas a esquerda é a favor das restrições às liberdades econômicas. E a direita é o contrário. Se perguntar para a direita: "Você é a favor que o Estado restrinja liberdades comportamentais?", a direita vai dizer: "Sim, porque isso vai contra nossas tradições, porque não é certo, onde já se viu dois homens se beijando na boca, onde se viu o aborto?". Se perguntar para a direita se é a favor de restringir liberdades econômicas, a direita vai dizer: "Não, tem que deixar a economia se desenvolver de modo livre".
Mas isso não explica tudo...
Isso não explica todo o quadro político porque tem quem, como os libertários, que é a corrente com que eu me identifico, defenda que o Estado não deve restringir liberdade comportamental e não deve restringir liberdade econômica. Porque a liberdade é uma só, é do indivíduo, de empreender e de cuidar do corpo dele. De fazer o que quiser com o corpo dele, de vender o objeto que é fruto do trabalho dele para quem ele quiser, excluindo-se a fraude e a coerção. E tem uma quarta posição também, que é a autoritária, que é aquele que defende que o Estado interfira tanto na liberdade econômica quanto na liberdade comportamental. Eu acho que esse no Brasil tem esquerda e tem direita. Infelizmente no Brasil falta uma posição mais liberal e libertária.
Ultimamente, vimos o surgimento de pessoas que poderiam ser enquadradas neste quarto grupo, com uma postura mais autoritária, defendendo a volta do regime militar. A que se deve isso?
Eu não sou sociólogo e sou um filósofo de paróquia. Eu acho que o fato de se ter uma ditadura militar que era associada à direita fortaleceu e deu bastante voz à esquerda. Agora, ter um governo de esquerda faz com que as vozes da direita sejam mais evocadas, estimula-se uma reação. Agora, essas pessoas não têm compromisso com a liberdade como não têm compromisso com a liberdade aqueles a quem eles criticam. A esquerda, para mim, não tem compromisso com a liberdade. Essa direita conservadora não tem compromisso com a liberdade. Eu tenho ojeriza dessa turma.
O senhor já chegou a ser confundido com essa turma?
Sim. Claramente eu sou considerado de direita ou da direita conservadora. Quando posso, explico que existem quatro posições e que sou um libertário. Mas, em alguns casos não dá para fazer nada, porque as pessoas têm o direito de, no mundo preto e branco delas, de achar que só existe esquerda e direita. Eu geralmente bato muito mais na esquerda até porque acho muito mais divertido bater em quem está em evidência. Logo, as pessoas acham que eu sou de direita. Um equívoco completo, uma obtusidade mental.
No Brasil, existe alguma corrente partidária que o senhor considera que fica próxima do que o senhor pensa?
De partidos legais, não. Existem grupos na internet, mas partidos não.
Qual a sua opinião sobre o pedido de impeachment da presidente Dilma?
Li o pedido e o achei razoável juridicamente; que há razões jurídicas para o afastamento e eu gostaria que ela fosse afastada. Mas o impeachment é mais que isso. É um movimento, uma mobilização e envolve outros ingredientes. O modo como vem sendo conduzido agora, com um presidente da Câmara do jaez do Eduardo Cunha (PMDB), as coisas ficam difíceis... Eu acho que seria bom, que o Brasil tem maturidade, tem um vice, é tudo constitucional. Não tem sentido falar em golpe, de modo algum, como não era golpe quando o PT pedia o impeachment do Fernando Henrique e do Fernando Collor... Mas acho que isso não mobiliza. Eu me lembro bem, em 1992, eu estava nas ruas. Aquilo era uma agitação muito grande. Legalmente, eu acho que razoável, mas os ingredientes subjetivos para o impeachment não são favoráveis. A política é um jogo de forças. O ideal seria que ela saísse...
E a Lava Jato? Como analisar o fenômeno da corrupção no Brasil e o envolvimento do PT?
Eu acho que a natureza humana é propensa à corrupção. O poder estimula a corrupção. Se quer diminuir a corrupção, diminui o Estado, privatiza a Petrobras, que eu sou totalmente favorável. Como, geralmente, as pessoas são contra ou a favor, elas não querem admitir o fato de que a corrupção é inerente ao ser humano como propensão, elas querem dizer que o PT é o mal absoluto. Obviamente que não é. A corrupção vem desde os primórdios da existência humana. O que é mais tocante, no caso do PT, é que ele criou em torno de si uma imagem, foi muito habilidoso no marketing dessa marca PT, de ser um partido que combatia a corrupção, que era a favor da moralidade na administração pública. Seria muito bom que todos fossem punidos e que se percebesse um mal ao Brasil não só pela corrupção, mas na administração geral do País. Mas o fato do PSDB ter sido um partido corrupto não impede que se puna o PT. Se detectamos um mal e acho que foi detectado que o PT tem envolvimento como partido em atos de corrupção , ele tem que ser punido. E o PSDB, se os crimes não estiverem prescritos, punir o PSDB. A gente não vai ficar órfão porque não tem PT e PSDB. É melhor, talvez, colocar outras alternativas.


