HÁ quase cinco meses que a greve impera no Campus Universitário. O bom senso e o equilíbrio nos orienta a não entrar em briga de cachorro grande. É por isso esta indecisão de todos nós, homens simples, homens comuns, em não nos manifestarmos na incongruência deste mundo globalizado, que se dirige não por normas de equilíbrio e decência, ética e moral, normas simples e intrínsecas a todo homem, mas por um sentimento novo de aglutinação em torno de grupos estanques que se julgam acima da Lei, de tudo e todos.
Nós nos perguntamos, estupefatos, como isso pode acontecer, onde estão as Leis, onde estão as autoridades, onde estão as normas que regem este mundo de hoje? Houve tempo, eu era menino, em que justiça era tomada por uma virtude, sincera e docemente exercida, para gáudio de quem a exercia e quem a recebia. Tínhamos então consciência plena do que era Lei: a realização do certo, do justo, o gesto puro. Acima de tudo tínhamos a consciência do direito: o caminho do bem comum, da convivência fraterna, a certeza da medida justa e na segurança do irretorquível.
Estamos distantes desses tempos e hoje vejo que não conseguimos mais ordenar e legislar o mundo em que vivemos. O que tínhamos naqueles tempos eram figuras da família, modelos de identificação ideais representado por valores que estavam à nossa volta, ao alcance de nossa mão. Hoje quase
temos vergonha de assinalar esses valores maiores. Embrutecidos pela ciência, pela universalização e globalização, que busca fazer todos os homens iguais, temos vergonha da nossa individualidade.
O desaparecimento da individualidade, assim como o declínio da função paterna que dosava e orientava dentro do contexto da família, tem consequências danosas à formação da personalidade dos jovens que se vêem atraídos por novos elementos de aglutinação, com medo de serem segregados do mundo globalizado.
Essas novas aglutinação, vazias e sem objetivos, formam os punks da vida, as galeras dos auditórios, as cracolândias, os carecas, grupos gays, etc. Os grupos não se organizam mais a partir de um chefe moral, de uma figura paterna austera, mas à partir de práticas mais segregativas. Nesse contexto não existe mais equilíbrio, bom senso, raciocínio lógico, objetivo sério a conquistar. O que importa é a vitória corporativista e nada mais. Não há bom senso que a oriente e nem lógica que a normatize.
Na greve, de um lado o governo, altamente corporativo, sem atinar para os problemas do ensino, intransigente e autoritário, sabe muito bem do poder de que está revestido e não se dobra. De outro, os funcionários agrupados num corporativismo de necessidade imediata, desestabilizados nas suas necessidades existenciais mais urgentes, não tem nada a perder e não cedem. Pior são os professores e universitários, pedras angulares das sociedades futuras, que tinham por obrigação trazer o equilíbrio e o discernimento às querelas estabelecidas. Como se acéfalos fossem, também em nome do corporativismo fantasioso e estéril, não dão a mão à palmatória.
Li alhures que, enquanto nos EUA, para cada 14 formandos existe um funcionário (professor ou auxiliar) e na Suécia, de 19 para 1; aqui, na Universidade, a proporção é de 1 por 1. Se verdade, é um absurdo, uma afronta. Alunos e professores em greve são seres pensantes. Deviam fazer uma análise equiitativa, séria,
justa dessa situação, abolir os excessos, mostrar que são imbuídos de valores maiores, fazerem uma autocrítica, limpar a Universidade do cabide de empregos e, só então, destemidamente terem legitimidade na exigência, que sei, será então justa e equânime em suas reivindicações.
Procurem com consciência e decência alavancar esse nosso Brasil com trabalho e honestidade para a frente e para o alto pois só assim terão mercado de trabalho. Que tenham a pura determinação e exijam o enxugamento do quadro de professores, assistentes e funcionários pois, nessa superdotação orçamentária dada à Universidade, ficam carentes nossos irmãos do ensino médio. Que a Universidade não lhes traga como objetivo fundamental e único saírem ‘‘doutores’’. Procurem se formar ‘‘doutos’’.
ANDRÉ CARLOS DE ARAÚJO MOREIRA, dentista e agropecuarista em Rolândia

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