Filipinas: as revoluções paralelas
A mobilização denominada Poder Popular Dois, que provocou a destituição do presidente filipino Joseph Estrada, compartilha várias características com a primeira revolução, chamada Poder Popular, de fevereiro de 1986, uma campanha de resistência pacífica que derrubou o ditador Ferdinand Marcos, que havia governado o país desde 1965. Nos dois casos, foram os integrantes do povo que arriscaram suas vidas e que se puseram de pé para defender suas crenças, com ações pacíficas e não violentas.
Houve críticas, em sua maior parte nos meios de comunicação estrangeiros, ao Poder Popular Dois, tachado de inconstitucional e de ter enfraquecido, de fato, a democracia restaurada em 1986. Não concordo com essas críticas. Para começar, o povo estava melhor informado por ocasião do Poder Popular Dois do que no primeiro movimento, o que causou a queda de Marcos. Isso se deve, em parte, ao fato de estarmos vivendo agora sob uma democracia, o que não ocorria em 1986, quando ainda estávamos numa ditadura.
Além disso, no Poder Popular Dois houve um fator extra, o dos meios de comunicação. As instâncias do julgamento político para a destituição de Estrada, acusado de corrupção, realizado no Senado, foram transmitidas ao vivo pelo rádio e pela televisão durante cinco ou seis horas diárias. Atualmente, devido à participação dos jovens e à disponibilidade das informações, as pessoas estão mais politizadas do que antes.
Por outro lado, depois da revolução de quatro dias (22 a 25 de fevereiro de 1986) do Poder Popular Um, nós, que então encabeçávamos a oposição, estávamos muito atarefados em tomar as rédeas do governo, enquanto outras pessoas tentavam ressuscitar seus negócios, voltar às suas tarefas ou encontrar novos postos de trabalho.
Não houve nada de equivocado nisso, exceto que falhamos em conseguir que as pessoas não esquecessem quantos haviam sofrido e morrido para recuperar a democracia e a liberdade perdidas durante a ditadura de Marcos. Agora que estamos desfrutando da democracia e que podemos apreciar o que ela vale, se chegamos à conclusão de que o governo está fazendo as coisas de maneira errada temos o direito e o dever de fazer algo a respeito.
O Poder Popular Dois, o julgamento político para a destituição de Estrada, foi o fator decisivo para a mobilização do povo filipino. As pessoas queriam dar ao presidente o benefício da dúvida, mas quando os senadores pró-Estrada votaram, no dia 16 de janeiro, para que não se abrisse um envelope lacrado com documentos adicionais comprovando a corrupção presidencial, a situação mudou radicalmente. Essa votação foi a fagulha que provocou a ira dos filipinos e os fez sair em massa às ruas.
Quanto à intervenção militar, no Poder Popular Um houve realmente uma tentativa de golpe de Estado, que foi descoberta pelo chefe das Forças Armadas de Marcos, general Fabian Ver. Assim, o então ministro da Defesa, Juan Ponce Enrile, e o coronel Gregorio Honasan tiveram de refugiar-se num quartel, de onde fizeram apelos ao povo filipino, que se dirigiu em massa ao centro da capital. Por sua vez, o Poder Popular Dois convenceu muitos de que eram necessárias mudanças e todos concordaram que deviam ser realizadas rapidamente.
Essa firme posição popular provavelmente também persuadiu os militares, além do fato de que houve membros da oposição que influíram sobre alguns altos oficiais. Mas foram os civis os protagonistas e os responsáveis pelo movimento que culminou com a queda de Estrada. Em 1992, quando me preparava para deixar o governo, recordei às Forças Armadas das Filipinas que nas eleições desse ano seu único direito era votar e que não lhes seria permitido interferir na esfera política.
O Poder Popular Dois repete essa mesma mensagem e estabelece que o principal dever dos militares é o de proteger a Constituição e os cidadãos. Naturalmente, congratulei-me pelo fato de o chefe das Forças Armadas, general Angelo Reyes, e outros generais concordarem em apoiar a então vice-presidente, Gloria Macapagal Arroyo, e em retirar-se Estrada do governo. Isso acelerou a transferência do poder e nos ajudou a evitar o que poderia ser uma situação violenta.
Com as próximas eleições, em maio, os filipinos deverão organizar-se e realmente chegar a conhecer os candidatos, bem como eleger os melhores entre eles. Tomara que não ocorra mais de o eleito ser quem tem mais dinheiro para dar aos eleitores. Por outro lado, deve-se fazer um esforço diário e sem pausas para evitar que isso volte a ocorrer. Não podemos descansar sobre os louros e nos limitar a dizer que, de todo modo, o Poder Popular Dois foi um êxito. O povo filipino conseguiu uma segunda oportunidade, mas para poder aproveitá-la deve, agora, ser capaz de colocar no governo líderes honestos e preparados.
- CORAZÓN AQUINO foi presidente das Filipinas entre 1986 e 1992 e é viúva de Benigno Aquino, líder da oposição ao ditador Ferdinand Marcos, assassinado em 1983 (IPS)





