Filhos de dekasseguis estão fora da escola
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sábado, 01 de março de 2003
Silvana Leão<BR>Reportagem Local 
Pais dedicando-se a longas jornadas de trabalho, filhos fora da escola. Esta realidade, cada vez mais comum nas casas de famílias de dekasseguis que partem para o outro lado do mundo com o objetivo de fazer fortuna, já preocupa educadores japoneses. Um dos problemas gerados pela ociosidade das crianças e jovens nas regiões de alta concentração de nikkeis é o envolvimento com a criminalidade.
Uma equipe pertencente à Universidade de Tokoha, na província de Shizuoka, está desenvolvendo um projeto financiado pela Unesco (Fundo da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) na tentativa de reverter este quadro. O nome do projeto é ''Ida e Regresso dos Trabalhadores Brasileiros no Japão Problemas de Identidade e Nacionalidade dos Seus Filhos'' e terá como base dados levantados nos municípios de Londrina e Cambé (13 km a oeste de Londrina).
Até o próximo dia 7 o grupo formado pelo professor Sampei Suzuki (coordenador do projeto) e oito alunos de cursos de graduação e pós-gradução na área de filosofia da educação estarão em Londrina visitando escolas e famílias que já tiveram experiências no Japão. Eles querem conhecer mais sobre o dia-a-dia dos alunos brasileiros e a expectativa dos pais em relação aos filhos ao retornarem para o Brasil.
A preocupação dos educadores tem razão de ser: existem atualmente no Japão 4,3 mil nikkeis. Grande parte deles está na província de Shizuoka, onde há 1,8 mil crianças estrangeiras cursando o equivalente ao nosso antigo primário e 700 crianças em séries correspondentes ao ginasial. Deste total, 70% são crianças brasileiras (1,7 mil).
Os que frequentam escolas, porém, são minoria. Há outros 2,5 mil filhos de brasileiros em idade escolar morando na província que não estão matriculados nas instituições de ensino japonesas. ''Muitas destas crianças ficam em casa cuidando dos irmãos mais novos, outras passam o dia sem ter o que fazer, e tem ainda aquelas que saem para as ruas e cometem delitos enquanto os pais trabalham'', explica o professor.
Segundo Suzuki, alguns pais argumentam que o ensino é caro, por isso os filhos não vão para a escola. Mas este não é o principal motivo, afirma o professor. Ele lembra que nas instituições públicas o ensino fundamental não oferece nenhum tipo de despesa para a família. ''A principal causa é mesmo o desconhecimento da língua, já que estas crianças vão para o Japão sem conhecer nada do país.'' Para amenizar a situação, há escolas com grande número de alunos brasileiros que têm professores nikkeys para ensinar a língua japonesa.
Os problemas, porém, não páram por aí. Vencida a barreira da comunicação fora de casa, com o tempo a situação se inverte: à medida que avançam nos estudos, as crianças falam cada vez mais em japonês e vão esquecendo o português, já que os pais passam o dia trabalhando e elas quase não têm com quem conversar. Quando os pais chegam, o diálogo praticamente não se realiza, e os valores culturais do país natal vão sendo perdidos.
Outra questão abordada pelo professor Sampei Suzuki é a dificuldade em acompanhar os níveis da língua japonesa. ''Nos primeiros anos de escola as crianças falam apenas o japonês coloquial, o que facilita a comunicação. Mas à medida que os anos vão passando, a linguagem vai ficando cada vez mais formal e mais difícil.'' Segundo ele, os jovens passam a ter muita dificuldade em entender e ser entendidos, e acabam abandonando a vida escolar. ''Quanto mais tempo a família fica no Japão, mais o problema se agrava'', constata Suzuki.


