Figueiredo:
um retrato de
corpo inteiro
André Stumpf
A entrevista exibida domingo no programa Fantástico, da Rede Globo, é um documento completo. Ali está, em retrato de corpo inteiro, o pensamento do ex-presidente João Figueiredo, recentemente falecido. Sua compreensão da vida, da política e do Brasil.
É particularmente notável o trecho em que ele reclama do abraço de uma baiana na igreja do Bonfim. Ele afirma que, logo depois do chamego, correu para o hotel e ‘‘por mais que me lavasse não conseguia tirar aquele cheiro de crioulo’’.
Deus o tenha. Ele se mostrou como era. O presidente Ernesto Geisel revela, em seu livro de memórias, ter tido a compreensão de que o regime militar desunia o Exército e prejudicava a caserna. Ele queria redemocratizar o Brasil para reorganizar as Forças Armadas. É um raciocínio complexo, porém verdadeiro.
No movimento de 64, alguns militares tinham experiência política anterior. Eram aqueles que vinham das revoluções iniciadas no ciclo de 22, no Rio de Janeiro. E no 5 de julho de 24, em São Paulo, que deu origem à Coluna Prestes. Tudo isso deságua em 30, na posse de Vargas. O pai do ex-presidente Figueiredo, general Euclydes Figueiredo, lutou na revolução de 32, a chamada Constitucionalista.
O governo Vargas conteve os oficiais. Cooptou uns e mandou para o exílio outros. A história política recente no Brasil passa obrigatoriamente pelos quartéis. A Intentona Comunista de 35 é, basicamente, um golpe militar. No ataque e no contra-ataque. A presença de tropas brasileiras na guerra contra o fascismo modificou as referências. Antes era comunismo contra fascismo. Aí surgiu a novidade: o liberalismo estadunidense.
Essa terceira via surgida nos anos 40 se impôs com determinação. Criou a Escola Superior de Guerra e começou a desenhar um país capitalista. Bem diferente dos planos estatizantes daqueles dois grupos anteriores dissolvidos pelo processo histórico. Era necessário entender, no entanto, que remanescentes daquelas teorias ainda viviam na década de 80. Teses, estudos e projetos custam muito a serem revisados. No Brasil, por exemplo, as Forças Armadas até hoje guardam influências do positivismo de Augusto Comte.
O governo Figueiredo prosperou e abriu horizontes quando o presidente assinou a anistia. Foi um incrível trabalho de negociação de Golbery do Couto e Silva e Petrônio Portella com a chamada sociedade civil. Antes, Petrônio Portella discutiu com os políticos a reforma partidária. E chegou a um bom resultado. Portella morreu. Golbery do Couto e Silva deixou o Palácio no episódio do Riocentro. Simonsen já havia saído. A partir daí o governo perdeu seu norte, seu objetivo e sua razão de ser. Passou a se constituir uma administração diária, e ineficaz, da escalada dos preços. Chegou ao final com inflação elevadíssima, dívida externa alta e descontrole político. Tancredo Neves foi eleito, mas não tomou posse. Sarney assumiu. E Figueiredo deixou o Planalto pela porta dos fundos. Goste-se ou não, esses são os fatos.
- ANDRÉ STUMPF é jornalista em Brasília

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