Certamente, não foi para rezar que Fidel Castro foi ao Vaticano, e nem sua visita ao Papa significou o piedoso encontro de um católico fervoroso com a autoridade máxima da Igreja. Ficou bem claro, da parte do único ditador latino-americano, que sua intenção ao visitar o pontífice de Roma foi política, na medida em que lhe interessa obter apoio mais explícito de João Paulo II ao fim do embargo econômico imposto por Washington a Havana. Entretanto, essa questão não foi abordada com o Papa. Segundo o porta-voz do Vaticano, Joaquim Navarro Valls, ‘‘não era necessário, pois a posição da Igreja (contra o embargo) é muito clara’’.
Mas, então, sobre o que falaram o ateu e anticlerical Fidel Castro e o Santo Padre polonês, cuja influência foi bastante importante no desmoronamento dos regimes comunistas da Europa Oriental? Segundo o porta-voz, ‘‘eles examinaram questões relativas à normalização das condições de existência da Igreja em Cuba e do papel dos fiéis na vida nacional’’.
Relembre-se aqui que, no início da revolução cubana, cerca de 350 escolas católicas foram estatizadas e dezenas de padres e freiras expulsos do país. Em consequência da ideologia socialista de Castro, que seguiu o modelo havido no Leste Europeu no tocante à religião, a ilha caribenha tem hoje menos de 200 padres para uma população de 11 milhões, e esta situação pode explicar porque Cuba é o único país que não foi visitado pelo Papa durante os 18 anos de seu pontificado.
Em 1992, o governo ditatorial de Castro atenuou as restrições contra a Igreja. Nesse sentido, mudou a designação oficial do sistema político de ‘‘ateu’’ para ‘‘leigo’’, além de suspender as proibições de acesso dos fiéis a empregos, moradias e até mesmo à filiação ao Partido Comunista. Um pouco mais livre, a Igreja agora se transformou num meio de fornecer ajuda humanitária, recebendo doações estrangeiras para distribui-las ao povo, como fez no mês passado com auxílio enviado dos Estados Unidos. Também tem participado de discussões sobre direitos humanos e economia de mercado.
Escudado por essas atenuantes para com os religiosos, Fidel foi ao encontro de João Paulo II e o convidou a visitar a Ilha comunista, o que poderá acontecer ano que vem, sendo que a data não foi ainda definida. Entretanto, será que alguém vê nessa visita ao Papa um indício de mudança de atitude por parte de Fidel Castro, o ex-aluno de jesuítas que se tornou ateu em nome de suas convicções marxistas-leninistas?
Pelo menos em termos de discurso, parece que o ditador continua firme em sua ultrapassada ideologia, apesar de ter aproveitado a visita à Roma para também se reunir com empresários e políticos, sendo que o encontro que mais chamou a atenção se deu com Giovanni Agnelli, presidente honorário da Fiat e um dos nomes mais importantes do capitalismo italiano. Obviamente, não foi para discutir sobre a revolução do proletariado que Fidel jantou com Agnelli, mas sim sobre possíveis investimentos em Cuba pelo grupo, que fatura US$ 50 bilhões por ano. Afinal, a ilha cujas exportações não chegam à vigésima parte deste montante, já atraiu a Benetton, que está para abrir sua quarta loja em Havana.
Mas se Castro ainda aproveitou para se reunir com o chanceler Lamberto Dini, a fim de avaliar a perspectiva de ampliação da cooperação econômica entre União Européia e Cuba, por outro lado reafirmou em Roma, que não há espaços para reformas democráticas em seu país, e que ‘‘as pessoas estão morrendo por causa do capitalismo, do neoliberalismo, das leis de mercado selvagem, da dívida externa e do subdesenvolvimento... O rico não conhece a fome’’.
Para esclarecer os fatos, nada melhor do que recorrer às palavras do cubano Carlos Alberto Montaner, um dos autores do ‘‘Manual del Perfecto idiota latino-americano’’. Ao contestar Eduardo Galeano, afirma Montaner:
‘‘Se há uns malvados poderes capitalistas empenhados em saquear os latino-americanos com a compra de nossos produtos ou com o vencimento cruel de créditos e empréstimos usurários, ao que se acrescenta os nefastos investimentos exploradores e o genocídio herodiano dos nossos revolucionários recém-nascidos, o razoável seria apearmos em qualquer esquina desse mundo cruel e tomarmos o caminho oposto: a gloriosa senda cubana’’.
O problema é que Cuba, após o desaparecimento do Bloco do Leste, dá mostras desesperadas de querer abrir as veias para que o capitalismo lhe sugue o sangue, enquanto enfrenta sua crise final com medidas de ajuste calcadas no FMI. Essa Cuba que Galeano apresenta como exemplo, chora e pressiona desde todas as tribunas aos Estados Unidos para que levante sua proibição de comerciar - o maldito embargo - e volte a explorar os pobres cubanos, como faz parte de sua cruel tradição. E enquanto faz isso, contradizendo o receituário de Galeano, a Ilha mantém, à base de abortos em massa, a taxa de natalidade mais baixa do continente, e a mais alta de suicídio.
- MARIA LÚCIA VICTOR BARBOSA é socióloga

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