Fidel Castro: um ditador em extinção - Maria Lucia Victor Barbosa
Fidel Castro: um ditador em extinção
Maria Lucia Victor Barbosa
Cuba está sob os holofotes do mundo. E não é para menos. Simbolicamente Fidel Castro deixou por instantes o uniforme militar que usa desde 1959, e apresentou-se num elegante terno azul escuro. O Comandante que prende, tortura e mata esta à paisana diante do papa João Paulo II, que lança sua mensagem aos cubanos: Venho como peregrino do amor, da verdade e da esperança a este povo sedento de Deus e de valores espirituais.
Não há dúvida que a visita do papa tem um profundo conteúdo pastoral, mas historicamente deverá se transformar num importante marco político para Cuba, um dos últimos países do mundo onde vigora o sistema comunista e o último da América Latina que suporta um ditador. Ditador que, como seus congêneres passados, se acredita possuidor de certa essência divina. Isso ficou claro quando Fidel disse ao papa que ambos eram como dois anjos a serviço dos pobres, ao que João Paulo II, com exemplar humildade do verdadeiro religioso, respondeu: Não somos anjos, somos homens. (O Estado de S. Paulo, 22/1/98)
O sentido pastoral da visita do Sumo Pontífice está ligado ao resgate da liberdade da Igreja católica na pequena ilha, que de 1962 a 1992 viveu a repressão religiosa sob um governo oficialmente ateu. Em 92 Fidel fez algumas concessões aos católicos, e no ano passado permitiu que o Natal fosse celebrado. Mas isso é ainda muito pouco, e o Vaticano sabe que Fidel Castro concedeu essa mínima abertura muito mais por motivos políticos do que religiosos, visto que a tênue liberação permitida pode funcionar como válvula de escape num país em crise desde que se tornou órfão da extinta União Soviética, que o sustentava. Em todo caso, provavelmente a Igreja não esquece que em 1961 o governo comunista de Castro fechou a maioria dos colégios católicos, expulsou cem padres e 460 se viram obrigados a deixar o país. Em 1962 Fidel tornou Cuba um Estado oficialmente ateu, e a partir daí a perseguição religiosa se abateu sobre a Ilha. Hoje Cuba não conta com nenhuma escola, universidade, hospital ou meio de comunicação católicos, e reverter este estado de coisas deve ser uma das metas de João Paulo II.
Mas o caráter político da missão do papa também existe por conta de sua própria posição ideológica, posição que o fez um dos grandes protagonistas do fim do Império Soviético. E sobre isso ele se expressou com clareza aos jornalistas durante o vôo de ida para Havana. Referindo-se a Castro, disse: O presidente sabe bem o que penso sobre o respeito aos direitos humanos. Eles são garantias fundamentais e a base de toda civilização. Levei essa mensagem à Polônia em 1979, em meu confronto com um sistema totalitário. Com a revolução, Cuba conseguiu avanços memoráveis em seus sistemas de saúde e educação. Espero que esses avanços se ampliem também na ordem da liberdade humana, da dignidade da pessoa. Nessas áreas há muito o que fazer. (O Estado de S. Paulo, 22/1/98). E quando perguntado por um repórter como ele via a importância da palavra revolução para os cubanos, respondeu: Esta palavra serve para designar a revolução de Cristo quanto a de Fidel e de Lenin. Ela tem dois significados diferentes: a primeira é a revolução do amor, enquanto a outra é a revolução do ódio, da vingança, das vítimas. (O Estado de S. Paulo, 22/1/98).
De certo modo Fidel respondeu habilmente às duras críticas elogiando o papa. Disse admirar suas valentes declarações admitindo o ocorrido com Galileu, os conhecidos erros da Inquisição, os episódios das Cruzadas, os crimes cometidos durante a conquista das Américas e sobre descobertas científicas que foram alvo de tantos preconceitos. (Jornal da Tarde, 22/1/98). Por outro lado, além de permitir ao seu povo uma catarse espiritual que o liberte momentaneamente das agruras materiais, Fidel usa a visita do papa para tentar se ver livre do embargo comercial imposto pelos Estados Unidos. Ele espera que João Paulo II condene tal política, e apoie seu governo sanguinário.
Sobre o embargo, explica Carlos Alberto Montaner, co-autor do Manual del perfecto idiota latinoamericano, o que existe é uma proibição que impede as empresas dos Estados Unidos de comerciar com Cuba e aos cidadãos americanos de gastar dólares na Ilha. Essa proibição teve origem no confisco de propriedades norte-americanas em Cuba em princípios da década de sessenta. Porém, segundo Montaner, o embargo tem um efeito muito limitado, visto que não faltam dólares para se comprar em Cuba, nem faltam produtos norte-americanos desde Coca-Cola até IBMs, exportados pelo Canadá, Panamá, ou Venezuela. Além do mais, Cuba pode comprar o que quiser em qualquer país da Europa, da Ásia ou da América Latina, e vender seus produtos que encontrem mercado no exterior. O problema, simplesmente, é que Cuba produz muito pouco, porque o regime é diabolicamente ineficaz, e o país carece, portanto, de produtos para vender e divisas para comprar. Quer dizer, o embargo é um mito.
De todo modo, a visita do papa funcionará como uma brecha num dique, que aos poucos aumentará com a força das águas. Vai ser difícil para o Comandante contê-las.
- MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA é socióloga.





