'Ficha Limpa' só vale para o futuro
As manchetes dos grandes jornais desta quinta-feira devem girar em torno da seguinte notícia: Projeto 'Ficha Limpa' é aprovado no Senado por unanimidade. Você olha e fica feliz. De fato justifica comemorar. Principalmente se você é um, ou uma, conformista como a grande maioria dos brasileiros.
Porém, uma leitura mais atenta vai mostrar que você pode adiar parte da comemoração. É o seguinte: uma emenda de redação apresentada pelo senador Francisco Dornelles (PP-RJ) na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado deixou claro que somente quem for condenado depois da sanção da nova lei é que será impedido de se candidatar pelas novas regras de inelegibilidade.
Você logo conclui: Que espertinhos! Livraram suas caras! A lei vai valer para os outros, os futuros candidatos. A cambada que está no poder passa incólume, a lei não os atinge. É impressionante: na hora de se defenderem mutuamente eles não consideram oposiação nem situação; não têm ideologia. Tem corporativismo. Tudo é feito na base do acordo. Tanto que quem defende essa manobra é o senhor Demóstenes Torres, do DEM (Democratas), autor de denúncias e críticas ao governo Lula. E o autor da nova redação é Francisco Dornelles, do PP. Eles estão fora, saem ilesos.
Caso a lei viesse a vigorar desde já, poucos se salvariam. Há 208 deputados com problemas na Justiça. Seriam inelegíveis. E 29 dos 81 senadores também tem problemas. Portanto, 41% dos deputados seriam excluídos e 36% dos senadores, que são sujos, também teriam que desistir e voltar para casa ao término do mandato. Seria uma lei profilática. Ela o é sim, mas para o futuro; não para as eleições deste ano.
Agora suponhamos que o Senado, num rasgo de dignidade e patriotismo, que certamente não tem, aprovasse a proposta na íntegra, como pretendia a sociedade. Alguém acredita que ela seria sancionada? Alguém acha que o Planalto iria rifar seus mensaleiros de estimação? Resta torcer para que não mudem a lei para beneficiar também os futuros candidatos daqui a quatro anos. E não vamos perder de vista que tudo é possível, quando se trata defender corruptos.





