Fica para depois - José Negreiros
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quarta-feira, 19 de agosto de 1998
José Negreiros 
Lula ou Fernando Henrique, quem quer que ganhe as eleições, não poderá fugir de uma fatalidade: embrulhar outro pacote de medidas para combater o déficit público. Desta vez para valer, e não como se fez em novembro do ano passado, quando só vingaram as medidas para aumentar a arrecadação metendo a mão no bolso do contribuinte. Os cortes jamais aconteceram, embora o investidor externo tenha demorado para perceber isso e muito tempo depois ainda elogiasse a ação rápida do governo na defesa do Real no momento mais ameaçador da crise asiática.
Um ano depois quebra a Rússia, o que mais temiam o especialistas internacionais. A ex-União Soviética é uma economia cheia de problemas, sem liderança e com uma enorme dificuldade de arrecadar. Não pode ser comparada com o Brasil, que nos últimos anos tem exibido exuberante performance, responsável pela atração de uma bolada na forma de capital de risco. As recentes privatizações demonstraram que o governo está sinceramente disposto a modernizar o País e a coligação política no governo só não arranca do Congresso o que não quer.
Por isso, é inacreditável que esse grupo não tenha disposição política para cortar o déficit. Só se compreende que aconteça por duas razões: 1. O presidente Fernando Henrique Cardoso ainda não se convenceu da necessidade de acabar com o déficit. Mesmo para um político inteligente como ele, que foi capaz de encomendar um plano para acabar com a inflação, é difícil aceitar que só será possível consertar os demais problemas do País depois de consertar o déficit; 2. Alguns ministros defendem uma política alternativa à receita de Pedro Malan/Gustavo Franco. Pregam a um modelo da época da economia fechada, quando era possível sonhar com o desenvolvimentismo.
Fernando Henrique hesita entre as duas correntes porque para um político, especialmente durante uma campanha eleitoral, é inadmissível cortar, decisão que não se põe em prática sem dor. Cortar, acreditam os políticos, é bobagem de economista liberal que não precisa ser levado a sério. Sempre se pode adiar as prioridades deles. E como diz o presidente do BNDES, André Lara Resende, a noção de custo de oportunidade de um político é igual à de uma criança. Ela prefere comer um chocolate agora do que guardá-lo para amanhã.
No tempo da inflação, o ministro da Fazenda tinha poder. Quando o presidente da República mandava-o cortar alguma coisa, o ministro sempre dava um jeito de atrasar um pouco, mas não precisava entregar os pontos. Sob a inflação o atraso asfixiava a vítima sem precisar matá-la e tudo acabava bem. Agora é diferente. Quem manda é o presidente da República, que tem a chave do cofre porque o Orçamento do Tesouro está sob a guarda da Seplan, onde, à exceção de José Serra, sentaram-se ministros fracos.
Já teria sido encontrada a cura para o déficit se a equipe econômica mandasse no orçamento, o que não acontece. Esse é o motivo, aliás, por que a equipe perdeu poder depois que se conseguiu a estabilização. E não adianta Malan pintar um bicho feio para Fernando Henrique. Até o início de outubro ele verá tudo cor-de-rosa. Não admitirá que a Rússia quebrou. Jamais se conformará com a importância de economizar. Até que as urnas sejam abertas, Fernando Henrique só existirá para fazer o bem.
- JOSÉ NEGREIROS é jornalista em Brasília


