FHC, Zagallo e a lição de Garrincha - Padre Roque
FHC, Zagallo e a lição de Garrincha
Bebe-se a largos sorvos a mentira que nos lisonjeia e gota a gota a verdade que nos é amarga (J. J. Rosseau)
Padre Roque
Certas obras da inteligência humana assemelham-se aos monumentos da planície de Gizé, no Egito: resistem bravamente ao tempo e, impassíveis, perpetuam-se pelos anos. Penso que uma destas obras - falando agora da cultura brasileira - é o livro Carnavais, malandros e heróis, do antropólogo Roberto da Matta, Próxima de completar 20 anos desde a sua primeira edição, a obra continua sendo peça-chave na literatura sociológica para o entendimento do mosaico cultural em se constitui a Nação brasileira.
No livro, Da Matta considera que a junção de três componentes importantíssimos da nossa cultura (o carnaval, o futebol e a propensão macunaímica comum ao povo brasileiro) nos oferece a possibilidade de fazer uma leitura privilegiada da Nação. Somos mestres de transições equilibradas e da conciliação, afirma o antropólogo, referindo-se a enorme capacidade do nosso povo de ignorar as diferenças da pirâmide social e fazer de manifestações culturais como o Carnaval e o futebol uma grande festa de confraternização entre desiguais - ricos e pobres, negros e brancos, cristãos e ateus.
A frase de Da Matta, porém, tem um significado mais amplo. O antropólogo também quer nos dizer que há uma forte tendência no Brasil de se minimizar a problemática nacional, de se evitar os conflitos sócio econômicos e, não raro, até de se fazer troça das nossas desgraças. E justamente esta dificuldade de reconhecer a existência de uma feroz luta de classes que nos leva, muitas vezes, a dizer certas inverdades - como por exemplo afirmar que está tudo bem quando, na verdade, sabemos que não está.
É assim com o povo, é assim com as elites. Mas não da mesma forma, porém. Se entre os mais humildes este componente cultural tem o propósito de nivelar o estrato social, revelando toda a cordialidade e a empatia inerentes ao povo brasileiro, entre as elites o que se quer é outra coisa - dissimular e ocultar a realidade. É mais ou menos o que faz o criticado técnico da seleção brasileira de futebol, Mário Jorge Lobo Zagallo.
Num dia, Zagallo diz que não há nenhum problema no comando técnico da seleção. No outro, a CBF chama Zico para promover algumas correções de rumo na equipe. Num dia, Zagallo diz que os preparativos técnicos e táticos da seleção andam muito bem. No outro, o time empata como o Atlético de Bilbao, numa partida de nível técnico deplorável. Num dia, a comissão técnica da seleção diz que Romário vai conseguir se recuperar do seu problema físico. No outro, o atacante é cortado do time e volta para o Brasil, aos prantos. Não é outro o motivo pela qual, em pesquisa feita pelo Fantástico no dia 1º, a maioria dos entrevistados se confessou apavorada com os rumos da seleção.
Impossível não comparar Zagallo com o presidente da República. Tal qual o técnico da seleção, FHC tem dito algumas inverdades à opinião pública e, depois, pressionado pelas circunstâncias, acaba sendo obrigado a desmenti-las. Num dia, diz que os problemas sociais não são tão graves quanto parecem. No outro, agricultores famintos promovem saques em supermercados no Nordeste para garantir a sua sobrevivência. Num dia, diz que a produção agrícola nacional está crescendo. No outro, a Conab confirma que a safra nacional deve cair das 79,6 milhões de toneladas em 97 para 75,6 milhões em 98. Num dia, diz que só a oposição está insatisfeita com os interesses do governo. No outro, o Instituto Vox Populi divulga uma pesquisa segundo a qual 59% dos entrevistados consideram que o presidente não está satisfazendo seus interesses.
Quem está dizendo a verdade, afinal? De minha parte, prefiro acreditar na máxima que um velho amigo me ensinou. Se muitas pessoas dizem algo sobre você, fique atento. Provavelmente, elas têm razão. Prefiro acreditar ainda na lógica de Mané Garrincha, o malabarista da bola, cuja extraordinária capacidade de bailar diante dos adversários nos encheu os olhos nos anos 50 e no início dos anos 60. Como nos conta o jornalista Ruy Castro em A estrela solitária, Garrincha era um cidadão comum, tão brasileiro como outro qualquer.
Símbolo do saudável perfil macunaímico do povo, ao qual nos referimos no início deste artigo, o craque não era muito afeito a concentrações antes dos jogos ou a intricados esquemas táticos. Gostava mesmo era de flertar com a bola. E nem precisava ser diferente. Jogador singular, dono de um extraordinário talento ao se movimentar em campo com suas pernas tortas, Garrincha sobrepujava qualquer esquema tático. Tanto que, dele, dizia-se que precisava apenas de uma coisa: que o deixassem jogar. E como ele jogava...
Era assim com Garrincha, é assim com o povo brasileiro. Humilde e fragilizado pela vida, o povo brasileiro não quer muita coisa. Quer, apenas, o sagrado direito de viver com um mínimo de dignidade - não mais ser enganado pelas nossas autoridades públicas e suas frases mirabolantes, como lamentavelmente ocorre hoje em dia. O povo quer, enfim respeito. Mas esta lição, a julgar pelo tratamento dispensado à Nação pelos representantes das nossas elites (chamem-se eles Mario Jorge Lobo Zagallo ou FHC), parece ainda não ter sido aprendida.
- PADRE ROQUE é deputado federal pelo PT do Paraná e professor licenciado do Departamento de Educação da Universidade Estadual de Ponta Grossa.





