O maior cabo eleitoral das eleições de outubro deste ano tem nome e endereço conhecidos. Chama-se Fernando Henrique Cardoso e passa a maior parte do tempo no Palácio do Planalto. Nos finais de semana, veste a camiseta de candidato e dedica-se a viagens pelos estados para fazer sua campanha de reeleição. A agenda do candidato-presidente é, certamente, a mais disputada pelos candidatos nos estados. Não é para menos. Cardoso, em alta nas pesquisas eleitorais, transformou-se em fator capaz de alterar o quadro da disputa para um lado ou outro lado.
Mas a vida do candidato não é fácil. O maior problema que os coordenadores políticos do presidente enfrentam no momento é a acomodação dos interesses dos aliados. A aliança que sustenta Cardoso nacionalmente não se reproduz na maioria dos estados e isso está levando a situações incômodas para o presidente. O que ele fará em São Paulo, por exemplo, onde tanto Paulo Maluf, à frente das pesquisas, quanto seu velho companheiro Mário Covas são candidatos e aliados seus? Covas está em uma posição incômoda nas pesquisas e não consegue sair do terceiro lugar. Por enquanto, apesar de disputado por todos, Cardoso não está subindo no palanque de ninguém. Mas não há dúvida de que na reta final da campanha ele terá que se definir. Os sinais que saem do comitê de reeleição apontam para o seguinte quadro: o presidente apoiará quem tiver condições de lhe dar mais votos e garantir sua reeleição. Mesmo que isso signifique o sacrifício de parceiros políticos e do próprio PSDB.
A situação atual já se vislumbrava desde as eleições de 1994. Quando eleito para seu primeiro mandato, o presidente foi obrigado a administrar com cuidado as relações entre os partidos que lhe dão sustentação. Eleito com o apoio de seu partido, o PSDB, em aliança com o PFL, Cardoso levou para seu governo também integrantes do PMDB, do PTB e do PPB, que representam, atualmente, sua base de apoio parlamentar. Aprovada a reeleição no Congresso, o presidente parte para tentar um segundo mandato, mas precisando enfrentar problemas com a acomodação das posições de seus aliados.
Nas eleições desse ano, Cardoso concorre com a mesma coligação que o lançou nas eleições anteriores, acrescida do apoio formal do PPB e do PTB. O PMDB, dividido, decidiu não apoiar a reeleição de Cardoso ou lançar candidato próprio, mas parte considerável de seus governadores e parlamentares está apoiando o presidente. O problema é que a aliança nacional, salvo raras exceções como o Rio Grande do Sul, não se reproduz na maioria dos estados.
Tal situação produz dois problemas imediatos. O primeiro deles é para o próprio partido de Cardoso. O PSDB, nas eleições de 1994, elegeu os governadores dos três principais estados do País, São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. Corre o risco de, nas eleições desse ano, não repetir o feito. No Rio, o governador Marcello Alencar desistiu de concorrer à reeleição. Em seu lugar, disputa o vice-governador Luiz Paulo Corrêa da Rocha, com chances mínimas. Em São Paulo, o governador Mário Covas, mesmo licenciado (recurso ao qual recorreu para poder dedicar-se com mais afinco à sua campanha) não consegue decolar. O governador de Minas, Eduardo Azeredo, embora com chances de reeleger-se, ainda continua dez pontos atrás do ex-presidente Itamar Franco nas pesquisas.
A segunda consequência, a persistir a situação atual, é que o PSDB perde força nos três maiores colégios eleitorais do País, com evidente desgaste eleitoral e possível redução de sua representação no Congresso. Na esteira desse provável fracasso do PSDB está a questão da governabilidade de um eventual segundo mandato de Cardoso. O enfraquecimento do PSDB corresponde ao crescimento da representação dos outros partidos integrantes da aliança que apóia o presidente. Cardoso é acusado por seus adversários, e até por aliados, de abrir demasiados espaços ao PFL em seu governo. Essa influência seria ainda mais acentuada no caso de um segundo mandato com a adesão também do PPB, no caso de uma vitória do candidato Paulo Maluf em São Paulo. O PMDB, mesmo dividido, ainda é uma força considerável. O partido tem chances de eleger pelo menos dez governadores e chegar ao Congresso com a segunda bancada federal de deputados e a maior de senadores. É, portanto, uma força nada desprezível e com cacife político capaz de sentar-se à mesa de negociações nas mesmas condições de PFL.
A candidatura de Cardoso teve dois momentos distintos desde que a campanha eleitoral começou a ganhar corpo. No início do ano, com índices de aceitação no eleitorado superiores a todos seus possíveis adversários, seus aliados políticos passavam a idéia da candidatura imbatível, com a possível vitória no primeiro turno. Entre maio e junho, no entanto, o governo cometeu uma série de erros de comunicação, os principais indicadores econômicos começaram a despencar (principalmente os índices de emprego) e os institutos de pesquisa passaram a registrar um virtual empate técnico entre Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva, candidato da frente de esquerdas. A reação do governo foi imediata e Cardoso conseguiu recuperar a dianteira, com a forte utilização de recursos simbólicos, vinculação de seu governo com a tese da continuidade administrativa e aumento da ação executiva na área social. Teve ainda a ajuda da esquerda, que não soube consolidar a vantagem que havia conseguido nas sondagens eleitorais.
Liderando a corrida presidencial em todos os estados, menos no Rio, onde empata com Lula, Cardoso passou a ser, outra vez, o cabo eleitoral mais importante de seus aliados nos estados. É por isso que o comando de sua campanha política, com o coordenador Euclides Scalco à frente, está tendo que acomodar as queixas dos candidatos em desvantagem nos estados. Nas duas últimas semanas, o comitê de Cardoso recebeu a visita de candidatos do PSDB que estão em desvantagem nos estados, todos com o mesmo pedido. Cardoso precisa definir o candidato que apóia em cada Estado e deve participar dos comícios e atos de campanha de seus aliados. Não por acaso, todos os que reclamam estão em desvantagem nas pesquisas ou sendo acossados por adversários de partidos da mesma base que apóia Cardoso nacionalmente.
Mesmo que a estratégia do comitê de reeleição (de apoiar os candidatos com mais chances) venha a criar ressentimentos futuros, a decisão está tomada. Isso foi tornado claro, por exemplo, para o senador Carlos Wilson, que concorre ao governo de Pernambuco e está em terceiro lugar nas pesquisas, sem chances aparentes de vencer. Wilson foi ao comitê de Cardoso reclamar apoio e, como resposta, viu o candidato do PMDB, Jarbas Vasconcelos (primeiro colocado nas sondagens de intenção de voto), ser recebido para almoço no Palácio da Alvorada. A situação em Brasília é especialíssima, pois o candidato que mais convém a Cardoso é do PT, Cristóvam Buarque, que sobe consistentemente nas pesquisas.
Na semana passada, em duas oportunidades, o presidente emitiu sinais de que tem simpatias pela candidatura Buarque. O candidato do PSDB, senador José Roberto Arruda, ocupa o terceiro lugar na preferência dos eleitores. O ex-governador Joaquim Roriz, do PMDB, em primeiro lugar, não seria da confiança do presidente. A posição de Cristóvam nas pesquisas, em ascensão, e a tendência já identificada de queda do candidato Roriz, parecem confirmar a tese do comando político de Cardoso, de apostar nos candidatos com chances reais de vitória.
- WALDER DE GÓES é cientista político e dirige o IBEP (Instituto Brasileiro de Estudos Políticos) em Brasília

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