FHC-Clinton-Timor Leste -Léo de Almeida Neves
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 29 de junho de 1998
Léo de Almeida Neves 
A vergonhosa quase-omissão do Itamaraty e do presidente Fernando Henrique Cardoso na questão do Timor Leste tem decepcionado os timorenses e os defensores das teses libertárias, aqui e no exterior. No começo do mês, FHC foi recebido em Camp David pelo presidente Bill Clinton, e se é que eles falaram sobre o Timor Leste, a antiga colônia de Portugal ocupada militarmente pela Indonésia desde 7 de dezembro de 1975, o conteúdo disso não foi revelado.
Como se sabe, a Indonésia tornou-se independente da Holanda em 1949, depois da Segunda Guerra Mundial, culminando movimento chefiado pelo general Sukarno. No bojo da guerra fria entre EUA e União Soviética, o governo Sukarno, apoiado pelos comunistas, tornou-se inconveniente aos norte-americanos, que apoiaram sua derrubada em 1965, seguindo-se a sanguinolenta ditadura do general Suharto, que invadiu e anexou o Timor Leste.
Assim, o Timor Leste, descoberto pelos portugueses nas mesma época do Brasil, tornou-se a única possessão que não conquistou sua independência após a Revolução dos Cravos (em abril de 1974) em Portugal, que deu fim aos 50 anos do regime discricionário salazarista.
Ao tempo em que as ex-colônias Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe tornavam-se politicamente emancipadas, o Timor Leste não teve a mesma sorte, porquanto dias depois de formar governo independente, foi ocupado pela Indonésia, responsável pelo maior genocídio do século, matando mais de 200 mil timorenses, cerca de um terço da população.
No Timor Leste é proibido o ensino da língua portuguesa nas escolas e, pior, punido severamente quem fale em público o idioma lusitano. O líder da Fretilin (Frente Timorense de Libertação Nacional), Xanana Gusmão, está preso em Jacarta desde novembro de 1992, condenado à prisão perpétua, comutada em pena de 20 anos.
Apesar da repressão, o bravo povo do Timor resiste heroicamente ao domínio indonésio, batendo-se pela sua independência em guerrilhas isoladas nas montanhas, na clandestinidade dos centros urbanos e nas passeatas e ocupações de embaixadas por estudantes em Jacarta e outras capitais.
Em respeito ao direito internacional, a usurpação praticada pela Indonésia recebeu vigorosa repulsa da ONU, cujo Conselho de Segurança já baixou sete resoluções exigindo imediata desocupação do território do Timor Leste.
Como manifestação universal de repúdio ao morticídio praticado pelo governo e pelas forças militares da Indonésia, o Prêmio Nobel da Paz foi concedido em 1996 a dois líderes da resistência do Timor: José Ramos Horta, ex-ministro das Relações Exteriores do curto governo independente do Timor, e o bispo D. Ximenes Belo que, cumprindo suas obrigações religiosas, permanece em Tili, capital do país. Nem com a repercussão internacional da concessão do Prêmio Nobel aos dois líderes do Timor Leste, o general Suharto mudou de atitude, porque tinha as costas quentes da proteção norte-americana.
Entrementes, com sua imensa autoridade moral de ter liderado a luta que eliminou o apartheid na África do Sul e suportado 28 anos de prisão, o presidente sul-africano Nelson Mandela, em visita a Jacarta em julho de 1997, exigiu do general Suharto a libertação de Xanana Gusmão, ofereceu-se como mediador e, posteriormente, empenhou-se junto a chefes de estado europeus em favor da causa timorense.
Afinal, por quê a Indonésia, quarta nação mais populosa do mundo - 200 milhões de habitantes - tem tanto interesse no Timor Leste? É por causa do petróleo, explorado na plataforma submarina por empresas indonésio-australianas. O Timor detém outros minerais e produz cereais e café.
Felizmente, não há ditadura que dure para sempre, e o general Suharto não resistiu à revolta popular, resultante de gravíssima crise econômico-financeira e obrigaram-no a renunciar em maio deste ano. Até Portugal, que abandonou sua colônia à própria sorte, já vem enfatizando que deve cessar imediatamente a ocupação do Timor Leste.
Junho foi decisivo para o futuro do Timor. Coincidentemente, três dias depois do colóquio FHC-Clinton, e prevendo a retirada do apoio norte-americano, o presidente B.J. Habbibie, que sucedeu o general Suharto, libertou quinze ativistas pró-independência e prometeu status especial para o Timor. Tudo indica que falta pouco para a vitória final de nossos irmãos timorenses e a conquista de sua independência política.
Imaginei o diálogo FHC-Clinton em favor dos nossos irmãos do Timor Leste e gostaria que ele tivesse realmente acontecido. Mas ainda é tempo de Fernando Henrique Cardoso redimir-se, assumindo essa nobre causa em vias de sagrar-se triunfante.
- LÉO DE ALMEIDA NEVES é suplente de senador pelo Paraná, ex-deputado federal e ex-presidente do Banestado


