Poderia uma pároco da aldeia virar papa? Teoricamente, sim: na prática, seria quase impossível, a não ser que a aldeia fosse muito próxima de Roma e o pároco, santo milagroso e amigo dileto dos cardeais. Poderia Fernando Henrique, da noite para o dia, virar um atacadista da política, saindo do balcão do varejo, onde trabalha de maneira redobrada desde que se deflagrou a campanha da reeleição? Muito difícil, porque a arte de vender no atacado não é um ofício que depende apenas do vendedor, exige vontade dos consumidores, predisposição e incentivo dos mercados. O presidente tem vocação para papa, por suas qualificações pessoais; age, porém, como pároco de aldeia, porque é refém da cultura paroquialista que predomina nos fiéis da comunidade política.
Sabe-se que FH é um reformista. Tem dado provas disso. Mas as forças de reação à reforma estão na própria formação do sistema político brasileiro, aí incluídas as questões da representatividade, do sistema de voto, da fidelidade partidária, dos feudos e heranças eleitorais, da ausência de escopo conceitual nos partidos, entre outras. O presidencialismo, para garantir mínimas condições de governabilidade, usa seu poder e moedas de troca para se fortalecer mantendo a base política em precário equilíbrio. As reformas são lentas, porque o reformador age para contentar, ao mesmo tempo, conservadores - a maioria que quer manter privilégios - e os ‘‘revolucionários’’ - a minoria que exige expansão da participação política, com ruptura rápida, completa e até violenta de valores.
O professor José Arthur Gianotti faz um belo diagnóstico, quando diz que seu amigo Fernando Henrique corre o risco de ‘‘ser engolfado pela alienação que faz o sistema político girar em falso’’. Mas como sair do círculo vicioso, quando atores fundamentais da vida institucional preferem sobrepor o conceito regional ao conceito nacional, a visão paroquial à visão universal e o sentido pessoal ao sentido social da política? São meramente retóricas, sem efeito prático, as reflexões em que se procura pregar ideais da modernização institucional e política, sem se estabelecer o oportuno corte com a identidade de um país territoriamente extenso, coberto por desigualdades regionais, cultor de feudos e de culturas conservadoras nas formas de operar a política. Poderia FH furar o arsenal de mazelas que nos cercam e ditar novas regras do jogo político, sem comprometer o equilíbrio de seu governo? Pouco provável. Sem a devida cautela, estaria cometendo suicídio.
Onde está, então, a saída para o impasse? No próprio corpo do sistema político, ou seja, no Parlamento. E aí onde tudo pode começar a mudar. Mas as coisas não são tão fáceis. Como se sabe, a meta de político é a de preservar e expandir seu poder. Quando parlamentar, o político procura compatibilizar interesses coletivos e nacionais com necessidades pessoais, locais e regionais. Para aceitar aqueles, quer recompensas para estas, sem o que estariam apeando-se da sela do poder. Para mudar a equação, só mesmo alterando-se a forma de fazer política. Exemplo: a fidelidade partidária diminuirá a taxa de barganha, com efeito positivo sobre a racionalidade política.
A forma de governar no varejo pode ser também atenuada com a instituição de um grande projeto nacional de desenvolvimento, confundido frequentemente com metas setoriais e emendas de remendo, que são marcas corporativistas acomodadas para atender a fila do varejo. Trata-se, isso sim, de um macro-projeto com os eixos do desenvolvimento, matrizes conceituais para as regiões do país, programas para os centros congestionados, políticas agrícola e industrial, seleção de grandes prioridades e pólos de crescimento. Substitui-se a parede de mosaicos diferentes pela estrutura retilínea. O orçamento geral da União seria, desta forma, uma peça harmônica, equilibrada e, sobretudo, destinada a colocar o país nos trilhos. A bíblia onde rezaria o país e que deixaria FH mais próximo ao papado e bem longe da paróquia de aldeia.

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