Luiz Geraldo MazzaFetiches de mau gosto
Políticos do estilo de Lerner (coloque-se aí outros como Requião e Álvaro Dias, que fica de bom tamanho) não abrem mão de griffe, de um teaser, de um símbolo. Pois agora o governador nos presenteia com um totem, um símbolo para o ponto fixo de policiamento, quer dizer uma ‘‘reciclada’’ no falido módulo, ainda que recheado de doutrina supostamente nova. Para quem aceitou o Farol do Saber, uma simbologia na qual, todos se lembram, havia também um guarda urbano na parte comum à torre (e que de lá sumiu) é de se esperar outro referencial fálico, ora lembrado em função dos feitos do Viagra e submetido à falta de imaginação jornalística na capa da ISTO É, com a sua caracterização como uma banana descascada e pronta para ser devorada.
O totem, aí deturpado em seu conceito original, marcado pela antropologia, é um símbolo de reverência, definidor do grupo e do clã, e gerador de interditos pelo ‘‘tabu’’. Na véspera do anúncio do Polícia Solidária houve a descoberta de três PMs como assaltantes de uma panificadora como antes já houvera tantos outros em ataque ao posto bancário do Hospital Nossa Senhora das Graças e também aquela denúncia do delegado da Antitóxicos (e que perdeu o posto, a pretexto de tocar outro projeto) de que havia 33 policiais envolvidos com o narcotráfico ou em práticas de extorsão.
Há muito tempo, pois, que o comprometimento interno da polícia deixou de ser algo para ‘‘fair-play’’. Pois apesar disso, o governador abriu mão de prerrogativas indelegáveis ao transferí-las indevidamente para o Legislativo. O sistema fica mais vulnerável porque submetido a critérios políticos num momento em que as corporações se mostram vulneráveis demais.
Não serão o rótulo e a embalagem que depurarão o sistema. Aposta-se mais na idéia semelhante à da pinga ‘‘Velho Barreiro’’ em que ‘‘até a garrafa é coisa fina’’, forma oblíqua de declarar a limpidez improvável do conteúdo. É a mania da propaganda tentar substituir as ações efetivas como se fosse possível enfrentar a concretude da violência por medidas psicológicas, tal qual se faz em certos estágios médicos com o placebo substituindo o remédio.
A insistência em operar com essas técnicas de manipulação mostra uma vocação ditatorial porque induz ao conformismo, como se fez com Curitiba no registro de cidade-modelo e ecológica, o que é apenas mentira repetida, macete do mestre Goebbels, acoplado na covardia de ligar esse ritual à noção de que só iluminados e conformistas amam a cidade e os que se postam criticamente a repelem, se é que não a odeiam. Como os totalitários sempre fizeram no apelo do ‘‘ame-o ou deixe-o’’ em que ficam paralelos aos deuses, acima do bem e do mal, e que os confundia com a Nação, tal qual se deu com Hitler e Mussolini.CROMO
A única e permanente vantagem de buscar discos voadores singrando o céu é a redescoberta do firmamento: tanta gente, deprê, olhando para o chão pouco anima a mudança do movimento, às vezes compensada por uma estrela cadente.
AXIOMAJosé Carlos Mendes entende menos de artes gráficas do que a sua irmã, a artista Mazé Mendes. Mas não hesitou em sugerir que em lugar dos totens para segurança se empregasse o Ton Ton Macoute, porrete à mão, na moda Duvalier.
GLOSA Quem anda pelos bairros se assusta com o número de meninos de rua. É aquela turma que foi tirada da Rua XV, uma toalete igual a do pedágio: finge-se que há uma estrada melhorada com apenas toalete; finge-se que os meninos de rua sumiram. Tal qual o poeminha de Manuel Bandeira sobre o gatinho da pensão burguesa, cioso da higiene e que escondia suas sujidades no jardim, enterrando-as com arte e talento. A saída da piazada do centro é bem parecida.
BIZARRICE Enquanto o governador, na base do ôba-ôba, lançava o Polícia Solidária, os sem-terra, que costuma tratar a pão-de-ló por temer ser apontado como ‘‘de direita’’, invadiram oito agências do Banestado. É claro que, no fim das contas, darão menos prejuízos que os feitos da Leasing e da Corretora.
SPRAY Um alto funcionário do Tribunal de Justiça, já afastado, deu enorme prejuízo ao longo de sua carreira e em função de alguns eventos como um encontro de presidentes de tribunais do Brasil em que recebeu todo o dinheiro e não o repassou aos prestadores de serviços. - O TJ teve anteriormente aquela troca de tiros entre o pessoal da garagem e que redundou numa morte. Como se vê, nenhum órgão público tem o corpo fechado. - Haja vista para o caso do Fórum até hoje sem futuro decidido e já ocupado por miseráveis e que teve andamento novelesco ao longo da briga entre o DEAM, do Bona Turra, e o dono da Cotelli, a construtora, acusada de erros na edificação. - Dentro de uns dias, o Bicudo, Valdir Córdova, terá a tradução da fala dos norte-americanos que aplicaram o ‘‘tolerância zero’’ em Nova York: William Braitton e Jack Nnyppel. Ele esteve junto com outros servidores da secretaria de Segurança nas reuniões havidas em São Paulo. - Para se ter uma idéia da extensão do processo basta referir que infrações leves como grafitagens de muros e o ato de urinar na rua eram combatidos com a mesma intensidade. Se saíssem por aí atrás dessa turma não haveria cadeia suficiente. Para capturar mijador, então, é só ficar de olho no Setor Histórico e, especialmente, na travessa atrás da Catedral. - Receio de geadas com as oscilações de ‘‘El Ni¤o’’ passou a preocupar quem apostou na volta da cafeicultura sob a forma adensada, menos vulnerável às temperaturas baixas. Há municípios como o de Ibaiti (2,3 milhões de pés de café adensado, dos quais 1,3 milhão se deve à prefeitura) que apostaram fundo na modalidade e isso é visível no retorno de, pelo menos, 1.500 trabalhadores.
FOLCLORE O Janene, que mantém a queda de braço com o governador, disse que antes de chamá-lo de pessoa sem credibilidade, como aconteceu, Lerner deveria explicar o rombo do Banestado e detalhar essa história do pedágio. Bastou isso para que reaparecessem as denúncias contra o dirigente do PPB na acusação de fraude eleitoral e envolvimento do sobrinho e mais ainda as relativas à sua empresa fornecedora de luminárias. Da discussão com Janene dificilmente nasce a luz, a não ser que haja luminárias adequadas.
AFORÍSTICO Roger-Gerard Schwatzenberg, com seu ‘‘O Estado Espetáculo’’, tentou atualizar a análise de Guy D‘Ebord em ‘‘A Sociedade Espetáculo’’, olhado como um atualizador do marxismo. Todo o dia no Paraná é dia de espetáculo: já foi de melhor gosto, hoje está mais para mafuás de pelotiqueiros que são na arte de rua uma deturpação como os politiqueiros para a política.

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