Como a vida, a política é feita de estações como o ano, este mês que vivemos é o verão alegre: as campanhas eleitorais com seu carrossel de comícios e promessas. Pensa-se, às vezes, que esse mundo fantasmagórico de manobras eleitorais, coloridas, acrobáticas, inescrupulosas, é atributo dos povos menos evoluídos. A observação nos convence do contrário. Pois como chamar de eleições a esses exercícios rabugentos, comuns aos regimes ditatoriais da esquerda e da direita nos quais plebiscitos sob medida dão aqueles previsíveis 99,97% ao autocrata do dia? Uma campanha eleitoral genuína faz-nos sentir livres: e esta sensação, parcialmente ilusória que seja, renova a vida em nós.
Pensa-se também que as promessas eleitorais são tanto mais quiméricas quanto os povos são menos cultos. Na realidade, neste ponto, todos os povos são igualmente crédulos. Mesmo num país como a França, terra do ceticismo e da finura, as promessas eleitorais chovem. Aos próprios parisienses, promete-se tudo e ao contrário de tudo. Nas últimas eleições, Georges Dayan enviou a todas as pessoas idosas de sua zona eleitoral cartas prometendo-lhes, se eleito, a colocação gratuita em suas casas de fechaduras reforçadas e de alarmes, bem como a organização de uma vigília noturna individual permanente.
Acompanhei o primeiro debate televisionado entre os candidatos a governador de São Paulo nas últimas eleições. Eis literalmente as promessas feitas aos eleitores: escolaridade para todas as crianças; erradicação do analfabetismo, da violência, da pobreza, da corrupção – e mais ainda no tocante a hospitais, aposentadoria, estradas de rodagem, urbanização, reforma agrária, salários, dívida externa, produção agrícola e industrial etc. Em suma, transformar não somente São Paulo, mas todos o Brasil num novo Éden.
Nos demais Estados, as promessas também choviam. O candidato Leonel Brizola declarava, pela televisão, que no seu governo, todas as famílias teriam assistência médica personalizada. ‘‘Não será a família que irá ao médico; o médico irá à família, e não somente quando houver doentes, mas de vez em quando para acompanhar-lhe a vida e orientá-la com conselhos.’’
Tenho na minha frente as promessas dos partidos que disputaram as últimas eleições. Delas pode-se extrair um livro sobre a arte de conduzir os homens pelo cabresto. Copio alguns artigos dos programas dos partidos mais votados para que o leitor chore ou se divirta, comparando o que se prometeu e o que se realizou nestes longos anos que nos separam daquelas eleições:
Amostra nº 1. ‘‘Assistência médica e odontológica pública, gratuita e eficiente a toda a população.’’ ‘‘Moradia digna para todos os trabalhadores.’’ ‘‘Ensino público e gratuito a todos os níveis.’’
Amostra nº 2. ‘‘Casa própria a todas as famílias.’’ ‘‘Empregos condizentes com a dignidade humana a todos os cidadãos.’’ ‘‘Gratuidade do ensino em todos os níveis.’’ ‘‘Iguais oportunidades para todos.’’
Amostra nº 3. ‘‘Erradicação do analfabetismo.’’ ‘‘Ensino gratuito em todos os níveis.’’ ‘‘Financiamento da casa própria para os assalariados, os funcionários públicos e os contribuintes de baixa renda.’’
O presidente Collor deveu sua eleição às suas promessas de combater os marajás e a corrupção e de moralizar a vida pública. E houve, naturalmente, a preocupação com o mundo inteiro. Pois, mesmo tendo as dimensões de um continente, o Brasil não é bastante vasto para conter todas as promessas eleitorais: ‘‘Defender os direitos humanos em todo o mundo, reconhecendo autoridade à ONU para coibir, sem o emprego da força, a violação de tais direitos.’’ Coibir sem o emprego da força? Como? Os eleitos nunca o explicaram.
A estratégia básica é, justamente, dizer o que se pretende fazer sem dizer como se vai fazê-lo. O candidato não diz o porquê, primeiro, na maioria dos casos, ele mesmo não o sabe; segundo, porque muitas promessas são fantasias lançadas de improviso, sem estudos prévios – só para agradar aos ouvintes e arrancar-lhes o voto; terceiro, porque o propósito de muitos candidatos é fazer promessas incompatíveis entre si para não perder eleitor algum: prometer aumentar os salários e, ao mesmo tempo, manter os preços estáveis; prometer as obras públicas mais dispendiosas e, ao mesmo tempo, a redução dos impostos; prometer ao eleitorado fazer com que 4 e 4 somem 20 ou mais.
Hoje, sabemos o que foi feito de todas aquelas promessas. E o eleitor lamenta ter acreditado nelas.
Mas o que acontecerá às promessas que feitas neste novo verão eleitoral, para a eleição de prefeitos e vereadores em todo o País depois de amanhã? As promessas enchem os jornais: já temos a substituição dos ônibus por trem e metrô, médicos comunitários; incentivos à agricultura (oh, as promessas do candidato Brizola também neste campo!), guarda municipal armada, superprodução de peixes, creches públicas onde as mães ocupadas podem deixar suas crianças e, textualmente, ‘‘escolaridade para todas as crianças’’.
Como se comportará o eleitor diante dessa nova onda de promessa? Elegerá mais uma vez os autores das promessas mais gigantescas para lamentá-lo depois?
Se pudesse haver progresso, seria devido mais uma vez à imprensa. A ela cabe lembrar as promessas passadas de cada partido e o que lhes aconteceu. A ela cabe, mais particularmente, desafiar os candidatos a dizer não somente o que pretendem fazer, mas também como pretendem fazê-lo, com que recursos, conforme qual plano técnico. Ou será comprovado, mais uma vez, como diz Rémy de Gourmont, que, apesar de tudo, ‘‘os donos do povo serão sempre os que sabem prometer-lhes um paraíso’’?
Não vamos, todavia, concluir neste tom pessimista. A estação das eleições é linda. E os povos só se sentem felizes quando acham que participam dos negócios públicos. A diferença entre ditadura e a democracia é esta: a ditadura alega que não se deve deixar o cidadão entrar na água até que saiba nadar. A democracia deixa-o entrar na água para que aprenda a nadar.
E quem sabe? Talvez ele o aprenda um dia.
- MANSOUR CHALLITA é escritor e jornalista no Rio de Janeiro

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