Festa no interior
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 28 de julho de 1997
José Nêumanne 
O mestre Wilson Martins, último dos moicanos da grande crítica brasileira, hoje limitada ao resenhismo espremido entre o ódio e o compadrio, tem chamado a atenção para a boa produção literária, além dos jardins do eixo Rio-São Paulo. Chamou a atenção para a força telúrica da voz nordestina do baiano do Ceará Soares Feitosa, militante da poesia na cibernética, e também destacou os bordados semânticos da prosadora pernambucana Maria Cristina Cavalcanti Albuquerque.
Manoel de Barros não precisou sair dos campos largos do Centro-Oeste para se afirmar como poeta maior, acabando de receber, com toda justiça, por sua obra mais recente, Livro sobre Nada (Companhia das Letras, 85 pp., R$ 15,00) o prêmio maior da última poesia da Bienal Nestlé, entre os autores consagrados. Mesmo tendo morado no Rio de Janeiro, o poeta matogrossense é tão ligado à terra que a única vez em que o vi na televisão foi dando uma entrevista, mas não num programa literário e, sim, numa série sobre ecologia. E a entrevista foi muito apropriada. Entre seus discípulos figura Raquel Naveira, que, como o mestre, não tenta ser mais um epígono de João Cabral de Melo Neto, a grande sombra que paira sobre a poesia metropolitana brasileira, e consegue publicar com rara constância.
Fiz parte do júri que decidiu ser o violeiro pernambucano Oliveira de Panelas o campeão brasileiro (ou seja, universal, como avalizou este Caderno SP) do repente, modalidade da poética popular nordestina. A disputa, promovida pela UMES e organizada pelo jornalista paraibano Assis Ângelo, mostrou que, ao contrário do que se poderia imaginar, a televisão não matou o desafio de viola do sertão, que tem sobrevivido, graças à força dada pelo rádio. Aliás, sua sobrevida tem sido bastante digna, pois uma verdadeira multidão de jovens, nenhum deles com cabeça chata, sotaque baiano ou cara de retirante, compareceu à final, que consagrou o talento reconhecido do campeão e revelou a vocação poética do jovem vice, o cearense Ismael Pereira.
Entre os urbanóides presentes ao auditório do Memorial da América Latina, naquela tarde de domingo, em que a jovem guarda saudou a poesia tradicional, o galego Marcelo Coelho, perplexo com o que viu e ouviu, compreendeu que no planeta globalizado o regionalismo está mais vivo do que nunca. E registrou seu entendimento em letra de forma.
Por sinal, a palavra de Coelho não está isolada. A emergência do Manguebeat de Chico Science também se fez notar no júri pela presença do esguio Siba, do grupo Mestre Ambrósio, expressão musical do encontro com a juventude com a tradição. Seu CD de estréia, independente (vendido pelo telefone 0800-557722), é aberto com a visão ingênua, mas engajada, do matuto sertanejo abordando a metrópole (José). Aliás, a obra inteira de Mestre Ambrósio é a amostragem explícita da festa no interior para olhos e ouvidos urbanizados. Ou seja, trata-se de um típico produto artístico da globalização, que supera os nacionalismos, mas faz aflorar os regionalismos.
Outro exemplo das possibilidades de introdução do artesanato dantanho na cibernética contemporânea também é dado no mercado fonográfico pelo maranhense Zeca Baleiro, que estréia no CD Por onde andará Stephen Fry? (MZA Music). No tecno-xaxado O parque de Juraci, o compositor e intérprete, apontado como sucessor de Chico César, presta uma homenagem a Steven Spielberg e Genival Lacerda. O norte-americano, gênio do cinema, conquistou as crianças do mundo com seus efeitos especiais. O paraibano, gênio do cancioneiro popular, tem mostrado a adultos os caminhos de volta à permanência da infância.
Jogando no estribilho com o trocadilho Jurassic Park e Juraci, que parque, o artista explora as possibilidades do interidioma, quase um esperanto, falado na aldeia global, que aproxima Paris à beira do Sena de Paris, Texas, e Nova York às margens do East e do Hudson de Nova York, Maranhão. Ao mesmo tempo, mostra como a segunda intenção pode ser ingênua e limpa, nem sempre de um erotismo vulgar.
No partido alto Kid Vinil, dedicado ao protagonista, ao sambista Martinho da Vila e ao milionário proprietário da Microsoft, Bill Gates, esse divertimento semântico é levado ao exagero no refrão Kid Vinil, quando é que tu vai gravar CD? - a própria obsolescência da tecnologia posta em xeque. Quer dizer: o que, no xaxado é só um jeu-de-mot, no samba da moda, o baleiro de São Luís põe em questão um dos defeitos de origem da globalização reinante: a substituição vertiginosa das tecnologias, que termina na tragédia coletiva da troca do trabalho criativo do ser humano pela repetição maquinal dos circuitos eletrônicos.
Felizmente, contudo, conforme podem comprovar as evidências apontadas em outros parágrafos deste texto, enquanto houver festa no interior, haverá vida inteligente no planeta globalizado.


