FESTA NO CINCÃO Região já é outra Londrina
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domingo, 08 de dezembro de 2002
Fábio Galão<br> Reportagem Local 
''No começo, quando eu ia para o centro abrir um crediário e dizia que era dos Cinco Conjuntos, eu sentia a discriminação. Falavam que eu era dos 'Cinco Capetas', o fim do mundo. Era difícil até para arrumar emprego'', afirma a funconária pública Rosicler Moreira Fonseca, moradora do conjunto Aquiles Sthengel Guimarães há 25 anos. Por esta frase, é possível resumir que o crescimento monstruoso do que era originalmente os Cinco Conjuntos passou não somente pela valorização imobiliária ou do comércio local, mas pelo sepultamento de um complexo de inferioridade.
Estigmatizado como ninho de gente sem recursos ou bairro dormitório, a região há muito é escolhida como moradia por famílias de classe média de outras zonas da cidade - e é plena de histórias de gente que ascendeu socialmente com os cinco conjuntos originais (que agregaram um sem número de outros bairros). É o caso de José Souza Cardoso, conhecido como Apollo, que trabalha como cabeleireiro na avenida Saul Elkind há seis anos.
Ele aportou nos Cinco Conjuntos há 17 anos. ''Aqui, era tudo fazenda com plantio de soja e café, chácara, pasto. Me meti no mato e ajudei a construir casas, a abrir bairros'', diz Apollo, que viu as casas populares acanhadas dos primeiros anos serem sobrepujadas por sobrados e casarões. ''Aqui não falta nada. Tem hospital, cartório, supermercado, loja de móveis, banco, até cadeia tem. Ninguém precisa ir até o centro para encontrar o que quer comprar'', garante o cabeleireiro.
Apollo afirma que paga R$ 288,00 de aluguel pelo espaço de 40 metros quadrados de seu salão. ''No centro, acharia um lugar até com aluguel mais barato'', afirma. José Luiz de Assis, delegado do Sindicato das Empresas de Compra, Venda e Locação de Imóveis (Secovi), afirma que a valorização de imóveis nos Cinco Conjuntos é tamanha que até abre brecha para distorções. ''Existem pessoas que pedem R$ 150 mil em casas que valem no máximo R$ 100 mil. Isto é superestimar, uma coisa fora do mercado'', explica Assis.
Ele confirma que o padrão nos Cinco Conjuntos, o patinho feio de Londrina, subiu a ponto de se igualar a regiões mais faladas da cidade. ''Existem muitas casas com valores equivalentes aos imóveis da avenida Inglaterra, no jardim Igapó (zona sul), coisa de R$ 50, 60 mil. O que acontece é que a parte comercial, concentrada na avenida Saul Elkind, está puxando muito o desenvolvimento da região. Nesta avenida, os imóveis comerciais apresentam despesas equivalentes a imóveis do centro. A única diferença está no IPTU'', diz o imobilarista, que completa: ''A tendência é valorizar ainda mais. Os Cinco Conjuntos já estão em outra realidade, é outra Londrina''.
José Antônio Faidiga, o primeiro dentista a abrir consultório na Saul Elkind, há 14 anos, concorda e sente esta realidade na pele - afirma que suas despesas são idênticas às que teria numa sala no centro. Sobre a suposta auto-suficiência da região, ele afirma que o comércio nos Cinco Conjuntos ainda apresenta lacunas a serem preenchidas. ''A região está cheia de filiais de grandes lojas da cidade, mas é possível perceber que o nível de qualidade dos produtos oferecidos aqui não é igual ao das matrizes. O comércio pensa que é necessário valorizar o público de baixo poder aquisitivo, mas o padrão está crescendo. A própria concorrência, que já é grande, vai exigir produtos melhores'', afirma.
Como moradora dos Cinco Conjuntos desde o nascimento do bairro, Rosicler Fonseca não tem saudades dos seus primeiros anos no Aquiles Sthengel. ''Era tão ruim que eu falava para minha mãe para vendermos a casa. Os pontos de ônibus ficavam distantes demais. Na falta de asfalto, quando chovia, tínhamos que levar um segundo sapato numa sacola para enfrentar o barro até o ponto. Hoje, não falta nada. As pessoas trabalham aqui mesmo, e a gente fica ouvindo no rádio as pessoas interessadas em comprar imóvel, perguntando se tem casa nos Cinco Conjuntos. Daqui eu não saio'', diz a funcionária pública.


