Houve uma festa no céu. Faz tanto tempo que detalhes da algazarra meio que se perderam no pó da estrada, esmaecendo no ‘entre nuvens’ da existência – tanto que hoje, quando alguém pontua o tema, as lembranças que vêm são tão cortadas que o ‘ouvi dizer’ assume a narrativa...

Assim está contada, por ouvir dizer, a mais antiga alegria celestial de que se tem lembrança, tirada em uma época passada onde homens e mulheres, mulheres e homens se conheciam e se reconheciam enquanto herdeiros da terra.

Em cada história uma medida, em cada canto uma lembrança, enquanto na floresta embrenhávamos nosso alheamento, prenunciando vida na antemanhã de um outro dia para sentir em lugar de ressentir.

Havia uma elegância impositiva que não se exprimia em vestimentas, naquilo que as princesas todas andavam nuas pelo meu país, de tão belas que seriam de se admirar – conforme canta o bardo latino de nossa era.

Essa elegância meio que se devia ao costume polido de uns cumprimentarem outros, uns perguntarem por outros e outros responderem e devolverem cumprimentos a uns e outros –cultivava-se o hábito de se importar com o outro.

Sabe aquele ‘je ne sais quois’ que significa nada e tudo? Então, ele pontificava uma era de festejar que engalfinhava atrevimentos, ao tempo em que sufragava entendimentos, aproximando tudo e nada, tisnando cousas em hipóteses e as pessoas em temas de existir.

Tudo que verdejava em cores multifacetárias projetava paletas de vivências, feito sobreviventes de um encontro de circunstâncias, colhido na manhã de nossa existência – o mundo não era do livre comércio e sim das pessoas.

Na altura, projetamos sombras que o sol propunha para momentos de trégua, enquanto os prumos e as mazelas não limitavam a essência do convívio – era, pois, tudo muito bom e assim caminhávamos sem pressa ou momentos a serem lembrados pela cisma de mais valer o que nada valia...

A medida exibida, então, pelos festivos habitantes do jardim da vida, era a absoluta ausência de fula – a vida andava a nosso lado, exprimindo fragrância própria, enquanto eu e você e as coisas terrenas, seguíamos pela estrada nos esquecendo de esquecer.

Era tudo maior e, ao mesmo tempo, menor – porque tudo era de e para todos.

Não nos importávamos com detalhes e circunstâncias, suposto que viver seguia sendo mais que existir. Tudo era tão bom também e porque não havia um só fascista sobre a terra.

Eis que o tempo vira e uma chuva assombrada de ventos velozes, entrecortada em raios de desviver, se manifesta e levanta a poeira secular sobre a construção de um lugar para chamar de meu. Nesse instante eu soube do que é feita a coragem: de sangue palestino.

Há muita coisa sendo feita no mundo multipolar de nossos dias de má poesia e pouca querença, onde a festa é para poucos e as amarras para bilhões. Coragem, todavia, tem DNA palestino.

É na Palestina que brota a ampulheta da história e faz jorrar na fonte uma dose gigante de coragem, impedindo aquela gente sofrida de desistir – ainda que o mundo lhe vire as costas, o palestino segue sua teima pela vida.

Não. Essa constatação não é antissemita – é contra o governo sionista de Israel, naquilo que, feito o racismo, não basta ser pró Palestina, há que se posicionar contra o genocídio que assistimos diariamente.

A altura se registra: as maledicências que desandam o mundo desgraçam o bom da vida e a história guardará nossa covardia no abandono daquela gente que está sendo, dia após dia, massacrada em um genocídio a céu aberto.

Sim, o mal caminha sobre a terra e nós estamos a reboque do apanhado desencontro de pequenas tentações que, em nome do interesse comercial de um mundo geograficamente questionado em suas novas ideações, reflete uma geopolítica de abandono e morte.

O mundo marcha a passos largos para um totalitarismo nazifascista que não se estriba em qualquer mazela outra que não a crise do grande capital.

E nós? O que nos resta? Enfrentar o vento norte com a coragem de um palestino!

Tristes trópicos. Saudade Pai!

João dos Santos Gomes Filho, advogado

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