Na mesa do almoço, uma refeição aparentemente comum: arroz, batata, peixe, salada de pepino com tomate e de sobremesa, banana. Na verdade, toda essa comida é transgênica. O arroz e o peixe (truta e salmão) têm genes humanos, a batata tem gene de galinha, o pepino e o tomate têm genes de vírus e bactérias e a banana tem vacinas.
É verdade que todos ainda estão à espera de licença para ser comercializados mas as prateleiras dos supermercados brasileiros já têm uma série de alimentos transgênicos. Segundo a Organização Ambiental Greenpeace, que mantém uma relação de produtos transgênicos na internet, a lista é longa: Cup Noodles, creme de milho verde Knorr, batatas fritas Pringles, várias marcas de salsichas, ovomaltine e até mistura para bolo Sadia.
A professora Olivia Nagy Arantes, farmacêutica bioquímica com mestrado e doutorado em genética molecular na USP, acha tudo isso ''normal''. Ela acaba de lançar um livro sobre o assunto, ''O que é preciso saber sobre clonagem e transgênicos'', resultado de três anos de pesquisa. ''É acessível para quem tem um mínimo de informação sobre genética. Fiz um livro com informações científicas exatamente para leigos, para que eles entendam como é feita a transgênese e a clonagem. O objetivo é informar''.
A idéia de escrever sobre dois assuntos tão polêmicos surgiu a partir de trabalhos que ela desenvolve há anos com a bactéria Bacillus Thuringiensis, a Bt, usada para fazer controle biológico de insetos transmissores de doenças e pragas da lavoura. No ano passado Olívia e um colega da Universidade Estadual de Londrina (UEL), o professor José Lopes, desenvolveram um bioinseticida à base de Bt para combater insetos voadores que são vetores de doenças como o Aedes Aegypti, que transmite a dengue, e o Anopheles, que transmite a malária. ''Tecnicamente, o Bt me inspirou interesse pela transgênese e depois meus alunos me inspiraram interesse pelo debate filosófico. Foi assim que eu comecei o livro'', explica Olívia, que também faz parte do Núcleo de Bioética de Londrina.
Defensora da transgênese, Olívia cita o exemplo da ''banana vacinante'' para demonstrar seu ponto de vista. ''A vacina é contra hepatite. Em vez de tomar injeção, você come uma banana. O fantástico da transgênese é isso, poder dar um passo além no melhoramento genético animal e vegetal'', diz a professora. Ela explica que a tecnologia não consiste em misturar duas espécies diferentes, criando uma terceira espécie: ''Transgênese não é o cruzamento de milho com uma bactéria. As pessoas confundem muito isso. Transgênese é aproveitar uma característica ideal da bactéria e introduzir o gene dessa característica no milho, que continua sendo milho''. Outro exemplo mais comum desse procedimento é a insulina, que antigamente era obtida de pâncreas de porcos e agora é produzida em escala industrial por uma bactéria que recebeu um gene humano justamente para produzir insulina humana.
Confrontada com os argumentos de pesquisadores e organizações que já se posicionaram contra a clonagem e a transgênese, a professora diz que a maioria deles pode ser derrubada por dados científicos. ''As plantas transgênicas que estão aí são absolutamente seguras para a alimentação do homem e o meio ambiente'', garante. ''As pessoas falam do perigo da manipulação genética mas para evitar isso é que existem os registros das culturas. Acho improvável alguém colocar veneno numa planta, cultivar isso em larga escala e depois conseguir comercializar. Toda nova planta desenvolvida tem que ter registro no Ministério da Agricultura e na Vigilância Sanitária'', informa. ''Nem a semente pode ser comercializada sem registro. Nesse aspecto, ela é muito mais segura do que a carne, por exemplo'', compara.
O risco de que uma ''aberração'' possa ser criada através da transgênese, para a professora, é nulo. Ela não acredita que a tecnologia possibilite o desenvolvimento de plantas ou alimentos nocivos. ''Desde 1950 fazemos cruzamentos para melhorar as plantas e sempre aparecem características indesejáveis numa ou noutra planta, que é eliminada. Nesse sentido, a transgênese é muito mais segura do que os cruzamentos porque você tem um controle absoluto do que está produzindo. Para usar essa tecnologia é preciso conhecer com precisão cada uma das partes usadas''.

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