Fernando José Dias da Silva
O terno ainda continua bem cortado. Os cabelos embranqueceram um pouco. O uísque também é o mesmo Dimple, aquele das covinhas. Mas o humor anda péssimo. Uma mistura de desânimo com indignação tomava conta daquele senhor sentado no final da tarde na varanda do Pandoro, um bar em São Paulo que vende bebida honesta há mais de 30 anos.
O ex-presidente reclamava da política de resultados que andam praticando ultimamente. Ele fazia parte do grupo dos autênticos do antigo MDB. Da banda de música de oposição que jogava pesado contra o governo na época da ditadura. O ex-presidente nunca morreu de amores por José Serra. Até porque, Serra na época em que foi secretário do Planejamento, no governo Montoro, foi acusado de passar por cima de muitos candidatos da esquerda para conseguir ser um dos mais votados como deputado federal.
Mas o ex-parlamentar estava perplexo: Está tudo ao contrário ninguém reclamou da nomeação do Serra para o Ministério da Saúde por causa de sua incompetência. Estão reclamando da sua capacidade administrativa e da sua força política. O que eles queriam? Um bestalhão no cargo?, perguntava ele.
As chamadas forças vivas que atuam na política querem mesmo os mansos nos principais postos da máquina administrativa. Aqueles que são maleáveis às demandas pessoais, aos cargos que fazem parte da cota a que eles acham que têm direito. A essas coisinhas do mundinho político.
José Serra ao ir para o Ministério da Saúde está pegando um pepino de proporções colossais. A situação do setor é deplorável. Mas se por acaso ele der certo, será um candidato respeitável para substituir Fernando Henrique no final de seu eventual segundo mandato.
E aí que o pessoal do PFL e do PPB começam a ter urticária. Os dois partidos já têm seus candidatos engatilhados. Esse grande momento que vai se dar em 2002. O PFL com o Delfim, Luís Eduardo Magalhães, filho de Antônio Carlos. E o PPB, o eterno candidato, Paulo Maluf. Essa é a principal causa da chiadeira dos partidos amigos de Fernando Henrique. Eles não querem que o jogo comece agora. Ou melhor, não querem que o presidente comece a jogar agora. Eles podem.
Quem espera a tão apregoada faxina nos costumes políticos pode pegar a cadeira. No próximo mandato, se for eleito, Fernando Henrique continuará a conceder. Fazer agradinhos para conseguir as coisa no Congresso.
Ele não precisará da maioria dos três quintos para fazer passar matérias constitucionais. Mas vai precisar de maioria simples. Vai precisar de 258 deputados para aprovar qualquer matéria de seu interesse. O PSDB dos tucanos não consegue fazer esse número nas eleições de outubro nem com reza brava. Por isso as coisas vão continuar como estão. A tal da governabilidade que é tão citada pelos governistas terá de ser alcançada a golpes de martelo na ética e com mordaça na discussão de idéias.
E então, quase 21 horas na chuvisquenta São Paulo, o ex-presidente planta os cotovelos na mesa, encara o interlocutor, olha, com os olhos de verdade e profere solene:
- Nós tínhamos que usar bata de pano cru, fazer dieta à base de acelga, dormir em catre e sermos absolutamente castos, fundamentalmente castos.
Essa talvez fosse uma saída para os políticos. Pelo menos para suas flatulências.





