Fernando Henrique contra Maluf
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terça-feira, 14 de janeiro de 1997
Gaudêncio Torquato 
A aprovação da emenda da reeleição não significa a recondução do presidente Fernando Henrique ao cargo. Ele deverá se submeter a uma nova eleição, apresentar um novo programa de governo, demonstrar a necessidade de continuação das reformas e convencer o eleitorado que ainda é a melhor opção para o país. Essas observações se fazem necessárias ante as versões, cada vez mais generalizadas, de que a reeleição será um passeio para o presidente. Não é bem assim. Primeiro, porque o Real esgotou a sua carga político-eleitoral. Já deu o que tinha que dar. Segundo, porque o adversário mais forte do presidente deverá ser Paulo Maluf e não Lula. Portanto, a desejada polarização com o extremismo petista não ocorrerá, até porque o partido acena com o nome de Tarso Genro, que fez uma grande administração em Porto Alegre.
Fernando Henrique terá tempo suficiente para colocar em ação os cinco dedos programáticos de sua campanha televisiva. Esta, aliás, será a principal cobrança que adversários e até correligionários fazem: onde estão os programas nas áreas da educação, saúde, agricultura, segurança e emprego? Na educação, são reconhecidos os esforços do ministro Paulo Renato, com sua política de descentralização e a ênfase que está dando ao ensino básico.
A saúde, no governo FH, está muito doente. O ex-ministro Jatene saiu sem muito poder fazer. As políticas de pleno emprego estão por vir. Na área social, o governo é basicamente cosmético. Suas ações e programas não ganham profundidade. Na área rural, a grande revolução a ser produzida com a implantação do ITR só ocorrerá mais adiante. E a segurança continua sendo um verdadeiro caso de polícia, ou seja, a violência nas grandes e médias cidades tem aumentado. Será que o governo terá muita coisa a mostrar nessas áreas, lá pelo final de 98? A resposta à questão balizará o sucesso ou insucesso da campanha henriquista. Se for insistir na estabilidade do Real, o presidente estará repetindo o discurso da campanha anterior. Diante de um eleitor mais racional, isso não pegará bem.
Do outro lado, poderá vir um Paulo Maluf revigorado, com vasto conhecimento estatístico sobre os problemas brasileiros e um discurso desenvolvimentista, inspirado em Juscelino, figura, aliás, que Fernando Henrique procura colocar como perfil inspirado, mas não tem conseguido. Maluf tem se esforçado para expurgar velhas feridas e manchas de imagem. Tem a facilidade de falar nos dialetos regionais que o Brasil exibe. Sabe distinguir um poço de um açude, um eixo viário prncipal de uma vicinal. Ou seja, ele sabe comer pelas bordas. Fernando Henrique é a imagem do Brasil grande, porém central. Maluf é a imagem dos pequenos brasis regionais.
A entrada do PT no cenário beneficiará mais Maluf que FHC, na medida em que este disputa muitos votos e espaços em segmentos próximos ao petismo. Maluf joga nas vastas áreas do centro político, avançando mais pela direita, sem, no entanto, vestir a antiga camisa de ultradireitista. Até porque, como ele faz questão de frisar, direita e esquerda, hoje, são meros sinais de trânsito. Fernando Henrique tem um charme pessoal e o glamour da intelectualidade. Sua capacidade de desfilar, de cabeça erguida, pelos salões mais sofisticados do mundo político internacional, desperta o orgulho dos brasileiros. É evidente que colocará no centro de seu discurso uma inquestionável verdade: o Brasil, com ele, melhorou. É estável e as pessoas sabem, agora, quanto vão pagar pelas coisas no início e no final do mês. Trata-se, sem dúvida, de um grande referencial para alimentar o processo decisório da população.
Mas 98 está muito longe. Sejam quais forem os cenários, uma coisa é certa: não há mais campo para a ideologização dos discursos. O povo brasileiro avança no caminho da racionalidade. E racionalidade, nesses tempos, significa estabilidade, progresso, bem estar, dinheiro no bolso, mais empregos, mais alimentos, transportes melhores, mais saúde, educação e segurança. O resto é filigrana.


