Fernando,
Alice ou
Poliana?
Mirian Guaraciaba
Quem assistiu, desavisado, à televisão e ouviu o discurso do presidente Fernando Henrique Cardoso dando posse a quatro novos ministros não teria dúvida de que estamos muito perto do país das maravilhas. O Brasil vai muito bem, no caminho certo, disse o presidente. Um país ainda melhor seria querer demais. O Brasil teve safra recorde, repetiu Fernando Henrique, pela enésima vez, ao falar das qualidades do novo ministro da Agricultura, Pratini de Moraes.
Ninguém duvida dos 80 milhões de toneladas de grãos colhidos nos campos brasileiros. Mas o próprio Pratini, ao receber o cargo de Francisco Turra, gaúcho que sai sem ter conseguido montar uma equipe de sua confiança - Clóvis Carvalho não deixou - registrou que são muitos os problemas na agricultura. Preços, principalmente.
Há outras questões que nem Pratini nem Fernando Henrique citaram: milhares de agricultores estão quebrados pelo país afora. Não conseguem pagar o que devem ao Banco do Brasil, comprometem suas safras para amortizar um pouco da dívida e não sabem se poderão plantar no ano que vem.
O presidente falou dos avanços da área das telecomunicações, mas não pediu desculpas ao contribuinte por ter amargado prejuízos pela forma apressada com que o governo quis que as empresas privadas começassem a trabalhar.
Aliás, se os brasileiros não saíram ganhando pelo serviço oferecido - cada vez pior em todo o País - também não terão vantagens nas tarifas cobradas. Pela média, os preços continuarão parecidos aos das estatais.
No discurso de posse aos ministros - além dos quatro novos, ele remanejou outros - o presidente, como sempre, reclamou da oposição e dos que só enxergam fatos negativos nas notícias sobre o governo.
Referia-se ao relatório da Organização das Nações Unidas, em que o Brasil foi rebaixado na classificação mundial no que diz respeito à qualidade de vida. Como contraponto, lembrou, também pela enésima vez, que 96% das crianças em idade escolar estão estudando. Apenas 1,5 milhão de meninos entre 7 e 14 anos estão fora da escola.
Informações havidas e repetidas pelo presidente, que não costuma fazer nenhuma referência a governos anteriores. Certamente, outros tiveram participação na elevação do nível de escolaridade da criança brasileira. ‘‘Nada contra gestões que me antecederam, mas o Brasil desenvolveu-se mais em quatro anos do que nos últimos 14 anos’’, afirmou ontem.
E, como prova de determinação, Fernando Henrique aproveitou a ocasião para fazer duas promessas solenes. A primeira: o Brasil vai crescer ainda mais, alcançando, até 2002, a meta de exportar US$ 100 bilhões por ano. A segunda: até o fim de seu segundo mandato, não haverá mais trabalho infantil neste País.
Sobre o crescimento brasileiro, o novo ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Clóvis Carvalho, disse, sem constrangimento, que a meta é apertada. Sobre a segunda... Bem, já vimos esse filme.
- MIRIAN GUARACIABA é jornalista em Brasília

mockup