Não há dúvidas: a suspensão do feriado de 20 de novembro, nos municípios do Paraná, é mais uma manifestação do racismo presente nas instituições públicas e privadas, que deveriam preocupar-se com o bem comum de todos. Nos últimos anos, a população negra tem conquistado maior visibilidade em suas reivindicações, bem como algumas conquistas, como o sistema de cotas nas universidades e, em algumas cidades, a reserva de vagas para o serviço público. Contudo, as elites dominantes e oligárquicas, que sempre detiveram o poder e o destino da sociedade brasileira, não se conformam com a luta dos negros pela cidadania plena.
A suspensão do feriado de 20 de novembro é a manifestação nefasta do racismo presente em nossa sociedade, que prefere não enxergar as desigualdades e a violência contra os brasileiros, sobretudo, contra os negros. O feriado foi conquistado com muita luta e à custa de inúmeras vidas que tombaram ao longo da história deste país, como a vida de dona Vilma, nossa Yá Mukumby, e parte de sua família, na tragédia que abalou Londrina e o Brasil.
O problema da violência e das mortes por homicídio fica ainda mais preocupante quando os dados são desagregados por cor/raça. Os negros são as maiores vítimas da violência, o que pode demonstrar que a cor continua a definir os lugares sociais e também o direito e o não direito à vida. No caso das pessoas com a tonalidade da pele mais escura, estas têm menor valor; é o que inúmeros estudos mostram, notadamente o Mapa da Violência de 2012. Segundo dados do Ministério da Saúde, em 2010, o número de pessoas brancas mortas por homicídios foi de 14.047 e as de negras 33.533, uma diferença de 125,8%.
A suspensão do feriado e a morte de dona Vilma não irão intimidar os negros e todos aqueles que acreditam no Brasil, na nossa nação, que é de e para todos e não somente de e para alguns. A justificativa de prejuízo financeiro é risível diante das mortes dos negros e das trajetórias escolares ceifadas pelo racismo presente em nossas instituições educacionais, o qual, mesmo sem rosto, porém de forma eficiente, se manifesta por meio de uma mentalidade racista.
O professor emérito da Universidade de São Paulo, Kabengele Munanga, ressalta que "o racismo é uma ideologia". Segundo ele, a ideologia só pode ser reproduzida se as próprias vítimas aceitam, introjetam e a naturalizam. São muitos os que discriminam, que se julgam superiores, que têm direito de ocupar os melhores lugares na sociedade. Se não existirem essas duas condições, o racismo não pode ser reproduzido como ideologia, mas toda educação que recebemos nos leva a reproduzi-la.
Os negros foram arrancados do seu continente de origem. Aqueles que sobreviveram ao tráfico negreiro tiveram e têm de lutar cada minuto da sua existência para ver reconhecida a dignidade de sua condição humana, 125 anos após a Abolição. É por isso que lutamos pelo 20 de novembro e queremos que seja mantido como feriado, pois é nesse dia que lembramos de Zumbi, líder negro, que lutou e manteve o Quilombo dos Palmares até a sua morte, em 1695, primeiro território livre que acolhia a todos. O feriado da Consciência Negra é fundamental, pois, para se lembrar da luta desse herói brasileiro e de que o racismo ainda impera no país, possibilitando a convocação de todos aqueles que acreditam numa sociedade mais justa e igualitária, na qual todos, sem exceção, possam ter seus direitos fundamentais respeitados.

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