FENÔMENO OBAMA - Questões raciais ganham novos contornos
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 14 de maio de 2008
Thiago Nassif<br>Reportagem Local 
As eleições presidenciais dos Estados Unidos causam um frenesi como nunca antes visto. Em jogo, não apenas questões econômicas, bélicas e relativas à vizinhança. Surge um fenômeno: no embate pela vaga à disputa presidencial pelo partido democrata, o senador Barak Obama já foi classificado como ''a grande esperança dos brancos'', pela imprensa norte-americana. Apesar de raramente mencionar as diferenças de cor, Obama, em seu discurso, oferece uma mensagem de cura civil.
Para o professor Dr. John H. Stanfield II, da Indiana University (EUA), essa mensagem ultrapassa o conceito da reparação e atinge o teor de respeito aos indivíduos, considerados como seres humanos e não simplesmente como membros de uma raça.
Em Londrina nessa semana para palestra na UEL, Stanfield II falou à reportagem da FOLHA sobre o atual momento que envolve as questões raciais, o ''fenômeno Obama'' - que traz o primeiro negro com chances reais de chegar à Casa Branca -, e o emprego da Justiça Restaurativa para os EUA se reconciliarem com seu histórico de discriminação racial. ''É uma questão de tempo algo similar acontecer no Brasil'', sustenta.
O que é o conceito de Justiça Restaurativa e como ele é aplicado nos Estados Unidos?
É um processo longo e complexo através do qual a sociedade recupera sua humanidade após um processo desumanizante. É um processo longo porque leva à tomada de consciência do que aconteceu e como aconteceu. Atualmente, os Estados Unidos vivem um momento único, que promete ser um divisor de águas, com o ''fenômeno Obama''.
Adversários questionam: de onde vem o ''fenômeno Obama''?
Obama é um fenômeno e faz parte de um processo histórico que começou no final da Primeira Guerra Mundial - quando começaram os movimentos contrários à segregação - e que teve continuidade nas décadas de 1950 e 1960, com Martin Luther King e a criação e aplicação de leis voltadas ao direito civil. Obama é um fenômeno que não veio do nada. Ele demonstra que tivemos tremendas mudanças com relação à questão da raça: hoje, há muitos norte-americanos de origens distintas que convivem em comunidades, escolas e universidades. Há a integração, também, com a participação de negros e brancos nos sistemas de saúde e legal, o que é fantástico. Já se vê negros como colunistas de jornais, nas esferas política e econômica, entre outros. E isso não acontece por uma questão racial.
Podemos dizer, então, que os EUA estão avançados em relação ao preconceito?
Ainda não. A Justiça Restaurativa não é uma perspectiva desenvolvida nos Estados Unidos. Está mais desenvolvida na África do Sul. Os EUA, infelizmente, perderam uma oportunidade fantástica na década de 1970, quando começaram a ação afirmativa, mas descartaram a Justiça Restaurativa. Ao impor alguma coisa e não trazer os motivos, as pessoas se tornam invisíveis. Funciona assim: eu o aceito como negro, mas você é invisível para mim, uma vez que eu não quero olhar sua cor e não entendo porque. A América de 2008 não é a América de 1920, mas está longe da perfeição. Tivemos mudanças, mas ainda há discussão quanto à discriminação.
Mas como trazer o conceito de raças à população?
A Justiça Restaurativa seria, também, uma efetiva política pública educacional. As pessoas precisam primeiro entender porque estão caminhando na direção da aceitação e do convívio, através de ações afirmativas. Na realidade, o conceito de raça é um processo para pessoas ignorantes. Enquanto você mantém as pessoas ignorantes de como funciona esse processo, o racismo é mantido.
E como colocar em vigor as políticas públicas educacionais no combate ao racismo?
Devemos, além de ensinar as pessoas, nas escolas, o que aconteceu em seus respectivos países há 400 anos, levar esse conhecimento ao mundo dos negócios, das empresas, no dia-a-dia mesmo. Isso passa necessariamente pela educação, não somente pela escola, mas por todos os meios de comunicação pública. Esse é o caminho para restaurar a humanidade.
E o Brasil, como anda, no que se refere às relações raciais?
Estou torcendo, rezando e espero que brasileiros não cometam os mesmos erros que os norte-americanos. Junto com a ação afirmativa é necessária a ação restaurativa. Não se pode pedir para as pessoas mudarem se elas não entenderem como é essa mudança. No Brasil, já há uma lei que faz com que as escolas ensinem a seus alunos literatura africana. É um grande passo, levando-se em conta que 48% da população brasileira é composta por negros, que estão sendo desperdiçados porque não têm respaldo. Potenciais médicos, engenheiros, doutores e até o presidente do Brasil podem estar escondidos em alguma favela do Rio de Janeiro.


