Feminicídio com fogo: padrões, silêncio e premeditação no Brasil
Os dados mostraram ainda que, em 83,6% dos casos, o agressor é parceiro, ex-parceiro ou familiar da vítima
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terça-feira, 23 de junho de 2026
Os dados mostraram ainda que, em 83,6% dos casos, o agressor é parceiro, ex-parceiro ou familiar da vítima
Folha de Londrina 
A partir do julgamento de dois casos de tentativa de feminicídio em que o agressor usou fogo contra mulheres, o Néia – Observatório de Feminicídios de Londrina se uniu ao Lesfem/ UEL (Laboratório de Estudos de Feminicídios da Universidade Estadual de Londrina) para realizar a pesquisa "Feminicídio com emprego de fogo e combustível: padrões, dimensão simbólica e evidências empíricas no Brasil (2023–2025)".
O levantamento, baseado no Monitor de Feminicídios no Brasil (MFB/Lesfem/UEL), reuniu 512 casos verificados em todo o país entre 2023 e 2025. O número de ocorrências cresceu 77% no período, passando de 124 casos em 2023 para 220 em 2025. Do total, 46,3% resultaram na morte da vítima.
Os dados mostraram ainda que, em 83,6% dos casos, o agressor é parceiro, ex-parceiro ou familiar da vítima. A proporção de agressores desconhecidos da vítima não chega a 2%.
O estudo também indica que 70,1% dos crimes aconteceram no interior de uma residência — seja da vítima, do casal ou do próprio agressor. Para as pesquisadoras, esse dado reforça a ideia do fogo como uma “arma de proximidade”, que pressupõe acesso à rotina e ao ambiente doméstico.
Um dos principais achados do relatório questiona a noção de que o uso do fogo seria um ato impulsivo. Segundo as pesquisadoras, é comum a recorrência de uma “narrativa do acidente” apresentada pelos agressores durante as investigações, com explicações como curto-circuito, vela ou até a atribuição de culpa à própria vítima.
Essa narrativa, segundo o estudo, costuma ser afastada por laudos periciais de incêndio. O levantamento associa o transporte deliberado de combustível ao local do crime e o histórico de ameaças prévias a um padrão de premeditação.
O fogo também amplia o dano além da vítima nomeada. Em 14,8% dos casos houve múltiplas vítimas atingidas pela mesma ação e, em 23,8% das ocorrências, havia descendentes ou ascendentes da vítima presentes no momento do crime, entre eles, 244 filhos menores identificados pelo levantamento.
Os dados mostrados pela pesquisa evidenciam que o uso do fogo em crimes de feminicídio e tentativa de feminicídio no Brasil não pode ser compreendido como um fenômeno isolado ou acidental. Ao contrário, o conjunto das evidências aponta para padrões consistentes de proximidade entre agressor e vítima, recorrência de contextos domésticos e indícios de premeditação.
Reconhecer esses padrões é um passo fundamental para enfrentar suas causas, fortalecer as respostas institucionais e impedir que a naturalização dessas ocorrências continue a encobrir sua gravidade.
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