Feliz 1997
PUBLICAÇÃO
sábado, 28 de dezembro de 1996
Maria Lucia Victor Barbosa 
O homem é um ser paradoxal. Gosta de aventuras, mas não abre mão da segurança. Age constantemente com base nos seus impulsos individualistas e egoístas, mas só consegue viver em sociedade, necessitando da solidariedade e da aprovação dos outros indivíduos. Deseja ardentemente novas experiências, mas tem horror ao desconhecido, aceitando com grande dificuldade as novidades trazidas pela ciência ou surgidas na sociedade por força das transformações tecnológicas e ideológicas. Sente necessidade da paz para que possa sobreviver, mas pratica a violência ou sente prazer em assisti-la.
Sobre essa questão das contradições, é interessante observar como as pessoas de modo geral clamam por boas novidades quando um ano está para começar, apesar de estarem sempre de olho nas catástrofes naturais ou nas tragédias provocadas por seus semelhantes. Ao mesmo tempo, tendem a se lamuriar, tendo ou não razão para isso.
Naturalmente, conforme o tipo de sociedade em que se vive, essas contradições básicas podem ser mais ou menos acentuadas e, desse modo, quando se aproxima outro ano é interessante conferir o que se passa no Brasil.
Pergunte-se, então, ao cidadão comum brasileiro como é que se sente nesse final de 1996. Possivelmente ele responderá que as coisas estão muito difíceis, porque sem inflação seus negócios estão dando prejuízo. Por causa disso, viajará com a família para Nova York, onde poderão se distrair e consumir à vontade, diminuindo assim o estresse que os esmaga.
Já os acadêmicos e os sindicalistas, ou seja, a esquerda, demonstrarão com belos discursos que com a crise galopante do desemprego, que atinge mais a classe baixa através da demissão em massa dos operários das fábricas, a profecia marxista está se realizando na íntegra nesse Brasil de profundas distâncias sociais. Ou seja: os pobres estão cada vez mais pobres e os ricos cada vez mais ricos.
Evidentemente, ainda temos uma péssima distribuição de renda, um poder público burocratizado e corrupto que mais atrapalha que ajuda, e nossa sociedade não é pródiga em ofertar oportunidades baseada no mérito pessoal. Acrescente-se a isso o fato de que somos um país onde predomina a inversão de valores, na qual os piores são admirados e muitas vezes homenageados, enquanto nulidades são prestigiadas e premiadas. E chegaremos à conclusão que não vivemos num paraíso propriamente dito, apesar de nossas copiosas riquezas e belezas naturais. Aliás, falta no Brasil melhor qualidade de justiça, saúde e educação, o que marca especialmente nosso atraso perante as nações chamadas de desenvolvidas.
Mas estará o povo tão mal, tão miserável nesse limiar de 1997? Não é o que informa uma pesquisa do instituto Marplan de São Paulo, encomendada e publicada pela revista Veja de 18/12/96, e que foi realizada em nova capitais representando um universo de mais de 20 milhões de pessoas.
Segundo o instituto, que comparou os anos de 1986 e 1996, a classe A (com renda média de R$ 4 mil), que em 1986 constituia 8% da população, continuou do mesmo tamanho em 1996. A classe B (com renda de R$ 2 mil) cresceu de 17% para 22%. A classe C (renda de R$ 900), que está consumindo mais, aumentou de 32% para 39%. Já as classes D (renda de R$ 500) e C (renda de R$ 300) diminuíram respectivamente de 36% para 28% e de 7% para 3%.
Inclusive, segundo a diretora da Marplan, Hilda Wickerhauser, está cada vez mais difícil encontrar gente da classe E nas nossas pesquisas. Além do mais, conforme a publicação da Veja, as classes C, D e E estão comprando de tudo. Logo que a inflação caiu e o orçamento ficou um pouco mais flexível, compraram comida. Depois é que veio a procura pelos produtos eletrônicos. A última moda dos consumidores emergentes é viajar, pedir pizza em casa, jantar assistindo a uma fita alugada numa videolocadora e comprar jóias baratas.
Outros dados interessantes apresentados pela pesquisa são os seguintes: nos três últimos anos as classes mais pobres compraram 550% mais equipamentos de som com CD e 158% mais aparelhos de TV com controle remoto. A venda de alimentos nos supermercados cresceu 86% em tonelagem, entre janeiro de 1994 e setembro deste ano. O consumo de cimento subiu 31% nos dois últimos anos. Os pequenos consumidores compraram 80% do cimento que saiu dos depósitos de materiais de construção.
Portanto, sem inflação e com crédito fácil, os pobres estão ficando menos pobres e os ricos do mesmo tamanho. É a realidade contrariando um dogma marxista e demonstrando que a chamada política neoliberal do presidente Fernando Henrique está corretíssima. E mesmo que haja ainda muitos desafios a enfrentar nesse país de contrastes e absurdos, o fato é que a estabilidade monetária gerada pela inflação estancada sinaliza para maior expansão econômica no ano que vem. Portanto, é hora de parar de choramingar, deixar de lado nosso peculiar pendor para o drama e desejarmos uns aos outros um feliz e próspero 1997, que assim já se anuncia. Afinal, estamos deixando de ser o país dos coitadinhos.
- MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA é socióloga.


