Esqueça os clichês de vendedores de silhueta redonda, encharcados de suor, implorando aos berros para que comprem suas verduras; desconsidere as brigas de donas de casa destemperadas que costumam assolar o ''núcleo pobre'' das novelas televisivas. A julgar pela feira livre do Centro de Londrina, realizada toda quinta-feira e domingo na Avenida São Paulo, não se fazem mais feiras como antigamente.
Centenas de barracas tomam a avenida entre as ruas Goiás e Alagoas, e esta última tem o tráfego interrompido entre a Rio de Janeiro e a João Cândido. Da montagem dos espaços, às três horas da manhã, até a hora da debandada geral, sempre entre 11 horas e meio-dia, o silêncio dá o tom. Isso não impediu que a feira do Centro escapasse imune às queixas dos moradores da região, numa polêmica que deve ter resolução nas próximas semanas (leia nesta página).
Há três anos, Yoshio Kuriki optou pela rotina de acordar terrivelmente cedo, montar e desmontar barracas, e carregar caixotes. ''Chego sempre lá pelas quatro horas, e faço isso todos os dias da semana, para passar por todas as feiras-livres da cidade'', explica o feirante. Antes do trabalho na feira, Kuriki havia passado por um emprego no exterior e tinha sido professor de matemática. Como a maioria dos colegas, afirma que atua como feirante por sobrevivência.
''Quem vai gostar de uma vida dessa? Tem que acordar cedo todo dia, carregar a mercadoria, começar o serviço de madrugada, esteja frio ou com chuva. Não é fácil, não'', afirma Antônio dos Santos Matos, também feirante. Mais um clichê cai por terra: o do feirante sorridente e satisfeito. ''Quando comecei a trabalhar na feira, há doze anos, era um serviço vantajoso. Uma banca era cara, porque havia um retorno garantido, dava pra manter uma família fácil'', lamenta Matos.
Não se sabe se o silêncio sepulcral da feira na última quinta foi ocasionado pelo receio de reprimendas dos moradores, mas desde o início da montagem das barracas, às 4 horas, o trecho de dois quarteirões da Avenida São Paulo que se encerra no Cemitério São Pedro não ouvia exaltação alguma. Mesmo quando o ritmo se intensifica, a partir das 5h30, quando mais feirantes chegam, um morador dos prédios vizinhos seria incapaz de afirmar que uma feira estava sendo montada na rua, confiando apenas nos seus ouvidos. Às 6 horas, praticamente todas as barracas estão a postos.
Os fregueses chegam logo depois; ocasionalmente, até antes. ''Hoje (quinta-feira), vem um cliente às 5h30, que marcou horário pra comprar laranjas'', diz Kuriki. Antônio Carlos Marques, que trabalha acompanhado da esposa, Carmem, explica que o pico da feira sempre acontece entre 8h30 e 9 horas. ''Aos domingos, sempre vem mais gente. Tanto que as barracas são desmontadas uma hora depois do normal, ao meio-dia'', explica o feirante.
A feira do Centro oferece o usual defumados, frutas, verduras, doces, pães, pastéis. Como todo universo à parte, este também institui suas regras: os pontos são sagrados e quem os obstrui recebe nariz torcido. ''Tem um morador aí, um desses que foram reclamar para a prefeitura, que coloca cavalete e caçambas em frente ao prédio onde mora para que ninguém monte barracas. Estamos trabalhando'', reclama Antônio dos Santos.
Quando as barracas são recolhidas, por volta das 11 horas, o silêncio permanece. A maioria dos feirantes guarda seu lixo em caixas e sacos pretos, mas, mesmo assim, ainda sobram restos no chão. E nada do barulho incessante associado às feiras livres. ''O movimento é sempre o mesmo, sem exageros'', afirma Antônio Carlos. ''Existe muita concorrência, de mercados locais, está difícil demais trabalhar em feira. Economizei dinheiro anos trabalhando (nume empresa de ônibus) para comprar uma banca, o comércio todo está em crise. Não compensa mais'', diz Antônio dos Santos. Gritos mesmo, só no final da feira, de um vizinho de barraca de Yoshio Kuriki e para o fotógrafo da Folha de Londrina: ''Ah, não, vocês escolheram um japonês muito feio pra fotografar!''

mockup