A morte de um homem na cidade de Laranjal, região centro-oeste do Paraná, reacendeu o alerta sobre a febre amarela, doença que não era registrada no estado desde 1966, quando 32 pessoas morreram. Este ano, dois casos autóctones foram confirmados e ainda há outros sob suspeita, incluindo a morte de uma mulher de 22 anos em Guarapuava na última semana.
O doutor em Medicina Veterinária Italmar Teodorico Navarro, que há seis anos coordena um projeto de pesquisa que investiga e monitora a circulação do vírus da febre amarela em primatas não-humanos no Paraná, falou à FOLHA sobre os possíveis riscos de uma epidemia no Estado e criticou a falta de cultura do povo brasileiro quando o assunto é vacinação.
O Paraná estava há mais de 40 anos sem registrar febre amarela. Qual a explicação para esse retorno?
Apesar de não se manifestar em humano, o ecossistema tem um reservatório escondido de alguma forma em macacos e outras espécies de animais que podem guardar o vírus. Muitos macacos morrem por febre amarela. A doença pega em um bando, e esse bando desaparece. Ficam apenas poucos exemplares mais resistentes. Até que eles se acasalem e produzam nova população, demora uns cinco, sete anos. No momento em que se cria um novo bando, repete-se o ciclo. O problema é que nós invadimos o espaço deles. Destruímos tudo, as matas ciliares dos rios reduziram-se a quase nada, não existem mais reservas florestais, e estes animais precisam se adaptar para viver. Aí começam a invadir as cidades, trazendo doenças.
Foram registrados dois casos autóctones no Paraná. Há motivo para alarde?
Não há motivo para alarde, mas é preciso muito cuidado. É igual à dengue: se relaxar, a epidemia acontece. Não vamos alarmar a população e dizer que todo mundo deve sair correndo se vacinar. Mas é necessário fazer o dever de casa, ou seja, o Estado cuida da vigilância sanitária e epidemiológica e a população toma a vacina com tranquilidade para ter proteção.
Mas o brasileiro não tem essa cultura...
As pessoas não tomam vacina. O Brasil só controlou a paralisia infantil porque usou a mesma metodologia da vacinação contra a raiva canina, indo de casa em casa para que todos fossem vacinados. Agora tem de ser repetido com a febre amarela. As pessoas só começam a se preocupar quando vêem notícia de morte. Depois de algum tempo, quando baixa a poeira, é difícil convencer alguém a se vacinar. É muito importante lembrar que o mosquito da febre amarela também transmite dengue. Se combater uma doença, também combate a outra. Imagina se hoje entra um cidadão no Rio de Janeiro com febre amarela. Com o tanto de mosquito que há por lá, faz um estrago em todo o País.
Devido ao fluxo de turistas?
Isso. Por que deu tanto problema de febre amarela em Goiás? Porque é um ponto de passagem de quem vai para Brasília e tem atrações turísticas como Caldas Novas, que recebe várias pessoas. Lá foi um foco, mas o difícil é convencer alguém que era preciso fechá-la em pleno verão.
Qual é a proposta do projeto desenvolvido na UEL?
Criar um protocolo de vigilância das arboviroses, doenças transmitidas por mosquitos em macacos, entre elas a febre amarela e a dengue. Usamos como base Porto Rico, as ilhas do Rio Paraná, e fazemos captura, identificação, avaliação e comportamento das espécies.
Tem muito mais doenças do que a gente imagina?
Não é só febre amarela e dengue. Achamos o Saint Louis, um vírus que até hoje no Brasil não se manifestou em humanos, mas já apareceu na Argentina, Estados Unidos e Canadá. Achamos ainda o Urupuchi, que causa um quadro de esquizofrenia no ser humano e é muito estudado na Europa. Se esses vírus foram achados nos macacos, também podem se manifestar nos seres humanos.

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