Febre aftosa minando confiabilidade
Não se consegue entender como o Governo, que tanto propagandeia o superávit da balança de compra-e-venda do mercado externo em parte devido às exportações de carnes tenha investido menos de 2% do valor que dispunha para combater a febre aftosa. Quando tudo ia bem, um surto inesperado da doença se revela em rebanhos bovinos de Mato Grosso do Sul e, de imediato, cinco países suspenderam (ao menos temporariamente) as importações do produto brasileiro, entre eles a Rússia, o maior comprador. Os prejuízos que advém disso são incalculáveis, porque entra em jogo a confiabilidade do Brasil ante os governos parceiros de negócios, as empresas importadoras e na ponta da linha os consumidores, exigentíssimos quando se trata de bens de consumo alimentar. Há um claro descompasso entre o que deseja o ministro da Agricultura e Pecuária, Roberto Rodrigues, e o ministro da Fazenda, Antonio Palocci. Na verdade, Palocci manda, enquanto o Ministério da Agricultura parece não existir. Palocci é que detém a chave do cofre e não o abre para questões como a da sanidade animal, tendo mesmo declarado que é preciso ''adequar o tamanho das despesas à arrecadação''. Se isso ao menos fosse uma verdade, mas tal não é, porque a gastança governamental nunca se ateve a essa matemática. E o presidente Lula, que deveria ser o árbitro da gestão governamental e estar atento a um setor econômico tão importante como este, está tão imóvel quanto boi atolado. Agora que o mal se instala, e o governo abate 500 cabeças de gado, as vozes oficiais vão à televisão e garantem que ''todas as providências estão sendo tomadas para que a doença não se alastre'', mas nem nisso se pode acreditar, se foi da própria esfera governamental a afirmação de que, para o combate à aftosa, não é só dinheiro que falta, mas também pessoal. Os deputados da bancada ruralista apontam, indiretamente, para o Ministério da Fazenda, porque cobram que o orçamento para o controle sanitário seja cumprido, e é dali que saem as verbas. É imperdoável que o rebanho bovino brasileiro, que tanto tempo levou para ser construído geneticamente, perca qualidade por irresponsabilidade como esta da não-liberação de verbas para a sanidade do rebanho, tão importante para abastecimento do consumo interno como para a política de exportação. Agora que a boiada corre o risco de ir para o brejo, o Governo envia emissários para aqueles países com o fim de tentar consertar as coisas. O ministro da Fazenda, ele especialmente, deveria saber que a febre aftosa poderia manifestar-se, porque a sonegação de verbas do controle sanitário apontava para essa inevitável ocorrência. Agora, como tudo nos governos inconsequentes, é correr atrás do prejuízo, quando isso poderia ter sido evitado.





