Fé e razão
PUBLICAÇÃO
domingo, 06 de dezembro de 1998
Rev. Antonio de Godoy Sobrinho 
Há poucos dias foi anunciada a publicação da nova encíclica do Papa João Paulo II, cujo título original é Fidelis et Ratio, expressão esta que segue a esteira histórica dos grandes debates entre a filosofia e a teologia havidos no Ocidente desde os primeiros séculos do cristianismo e cujas sementes já se encontram nas Sagradas Escrituras.
É indiscutível a oportunidade desta encíclica, não porque estejamos no limiar de um novo milênio que se aproxima, mas porque, de forma clara, pedagógica e competente, coloca diante de todos nós os paradigmas que devem nos orientar nesta discussão tão antiga, mas ao mesmo tempo, tão atual quanto premente, tendo em vista tanto o lugar que a filosofia deve ter no presente como reflexo moral sobre o mundo e a vida, quando a relevância que a teologia deve assumir como disciplina espiritual nestas horas de profunda crise e aturdimento existencial.
A encíclica mostra a grave confusão existente no presente horizonte filosófico. A que foi reduzida a filosofia, que, no passado, exercia uma cintilante atração sobre os espíritos mais argutos e inteligentes? Ao longo deste último século e meio de debates, várias conceituações restritivas acerca da filosofia foram disseminadas mesmo nos círculos universitários, que deveriam ser os preservadores e guardadores, mas que se tornaram os derrogadores desta grande beleza intelectual do Ocidente civilizado.
Quem disse que a filosofia é uma ciência tal, sem a qual o mundo seria tal e qual, isto é, que ela nem odora nem desodora, mostrou-se tão irracional e ilógico quanto um mastodonte do pleistoceno, tamanha é a falta de inteligência demonstrada. Especialmente nas universidades, hoje se reduziu, de modo geral, a filosofia à filosofia das ciências e à filosofia política. Uma voz escoteira está bradando aos quatro ventos lá no Canadá. É o caso do filósofo Bunge, argentino radicado no Canadá há mais de trinta anos, que bate na tecla de que se alguém quer aprender filosofia deve sair das universidades.
A encíclica papal é abundante em denúncias de erros que a filosofia atual está cometendo justamente porque deixou de ser uma reflexão sobre o ser, a nossa mais íntima e profunda realidade, para se tornar uma reflexão desestimulante, uma reflexão tão-somente apegada ao horizonte das impossibilidades humanas, quando deveria aceitar o repto para criar o pensamento capaz de alçar o homem ao alienável horizonte da sua transcendência, hoje, lamentavelmente, tão débil, frágil e fragmentada.
Nesta denúncia da encíclica são agrupadas todas as formas de ceticismo, relativismo, ontologismo, pragmatismo, niilismo, cientificismo, racionalismo e pós-modernidade. Os nomes de Santo Anselmo, São Boaventura e São Tomás de Aquino são trazidos constantemente à baila como exemplos clássicos de filósofos e teólogos que souberam com segurança compatibilizar a extraordinária convergência da filosofia e da teologia como aspectos sublimes da realidade única que o homem, como ser pensante, traz no mais profundo de sua consciência. É isto que o torna realmente humanum. Esta é a sua nobreza, esta é a sua dignidade, esta é sua grandeza.
A decadência da nossa civilização, já prenunciada por ninguém menos que Oswald Spengler, crítico da cultura, tem suas raízes na perda da visão moral da vida. Sabemos que não pode haver moral sem metafísica, isto é, a moral precisa ser fundamentada em algo que está além de si mesma, além do fenômeno, além do efêmero, além do transitório. A atual filosofia, na sua recusa quase dogmática da metafísica, está pobre e órfã. Daí precisar um cientista de calibre de Albert Einstein dizer para todos ouvirem: A ciência precisa da metafísica. Mas o problema é que a atual filosofia persiste em relegar a metafísica ao plano do desnecessário e do descartável, para a desgraça dela mesma.
No que tange à teologia, esta bela encíclica, publicada neste instante de intensa cultura da desesperança, também traz à luz do dia qual deva ser o real e legítimo compromisso da teologia. Esta não deve se alienar dos problemas humanos, das tragédias humanas, do destino humano. Assim como o Verbo se fez carne, historicamente apontado para o dado da Revelação, tal deve ser a caminhada da teologia. Em vários dos seus itens o Papa convida os próprios teólogos a demonstrarem a inteligibilidade dos dados da fé para que não se caia nas ciladas da crendice e da ilusão. A fé é entendida como o firme fundamento das coisas que não se vêem. Isto já ensinava a Sagrada Escritura: a fé é um dom do criador, é fundamento que tem que ser explicado pela razão, pela inteligência, pois Deus é a fonte tanto do crer como do pensar.
Para isso é preciso ousar, ter coragem, ter amor à verdade, sem o que a teologia ficará relegada ao ostracismo. Para os nossos dias, tais palavras soam como advertência e desafio para se propor um anteparo às ondas avassaladoras da moderna incredulidade e às mandíbulas devoradoras do atual niilismo. O autor destas condições pertence à tradição reformada, portanto protestante, mas se rejubila com esta lúcida e provocante encíclica, que, em suma, defende a preservação da revelação divina face aos ataques de dentro e de fora do cristianismo.
- REV. ANTONIO DE GODOY SOBRINHO é diretor do Seminário Teológico de Londrina, da Igreja Presbiteriana Independente do Brasil


