Nós católicos somos de uma pluralidade riquíssima
Não se deve esperar o céu de braços cruzados



Reuniões com lideranças políticas, missas com servidores públicos, jantares com empresários, atendimento aos pobres, celebrações com o povo. O trabalho diferenciado do Bispo de Apucarana, Dom Celso Marchiori, tem sido referência no Paraná, pelo engajamento e dinamicidade.

Paranaense de Campo Largo, ele não mede palavras para expor sua convicção e amor ao catolicismo. Com 56 anos, o bispo é considerado jovem para o cargo e mistura simpatia e rigidez no que se refere à doutrina da Igreja, conquistando católicos e até mesmo evangélicos em sua Diocese.

Mas a pouco menos de sete meses das eleições, ele não poupa críticas aos religiosos que optam por entrar na política. ''O papel da Igreja não é lançar padres candidatos, mas os padres têm o papel fundamental de conscientizar o povo'', declara.

Estamos em ano eleitoral. Como o senhor entende o papel da Igreja na política?
Nós todos somos políticos e devemos trabalhar pelo bem da sociedade. Jesus disse que a Igreja é um fermento na massa. Ela deve questionar, interpelar, fazer a crítica da política atual, para que as administrações tenham projetos de vida e não de morte, de exclusão, que gere consequências negativas para a sociedade. O papel da Igreja não é lançar padres candidatos, mas os padres têm o papel fundamental de conscientizar o povo e até mesmo indicar que leigos sérios, comprometidos com a Igreja, com consciência limpa se engajem no mundo político. Nós precisamos de gente que tenha uma visão cristã, por isso aos poucos vamos incentivando, para que tenhamos políticos católicos que façam o bem.

Isso não é um risco? A Igreja apoiar uma pessoa que pode vir a errar?
Daremos crédito à pessoa, mas, conhecendo bem essa pessoa. É um risco, mas fazer o bem é arriscado. Se não dermos passos concretos não alcançaremos o propósito de uma sociedade melhor. É necessário se posicionar. Se a Igreja não se comprometer com a sociedade não caminhará com ela rumo a um futuro melhor.

Católicos e evangélicos têm elogiado sua postura como bispo. A que o senhor atribui isso?
Tenho um bom diálogo com pastores de várias igrejas, defendo a união e o esforço para que as pessoas possam viver a graça de uma experiência com Deus em suas vidas. Como cristãos devemos buscar um bom relacionamento entre as Igrejas. Há mais para nos unir do que para desunir. Eu prego a verdade, ela é aceita pelos que a buscam.

A Campanha da Fraternidade de 2010 é ecumênica e trata sobre a economia. Mas o dinheiro é mau em si? Não há uma interpretação maniqueísta ao se tratar deste tema?
Unidos, católicos e evangélicos procuram com esta campanha dar um grito profético, que condena a supervalorização do dinheiro, que não é um fim em si mesmo, mas um meio. Por ele podemos conseguir a promoção da vida. A campanha condena o sistema iníquo que gera exclusão, miséria, fome, problemas ambientais. O lema poderia ser: Como estamos administrando o dinheiro, a favor da vida ou da morte? Dessa forma não há riscos de impor ao dinheiro um estigma de algo demonizado.

Na Diocese de Apucarana é perceptível a existência de duas linhas de espiritualidade católica, que muitas vezes se chocam: a Renovação Carismática Católica (RCC) e a Teologia da Libertação. Como o senhor trabalha isso?
Eu sempre vejo como portas abertas para o céu. Alguns têm mais intimidade com Deus através da Renovação, outros com outros movimentos. A RCC tem trazido muitos frutos, irmãos que se libertaram de seus vícios, famílias que foram restauradas, jovens que estão doando a vida em favor dos irmãos. Já a Teologia da Libertação é a própria teologia da Igreja. É necessária a promoção da vida, o serviço da Igreja na área social.

A Teologia da Libertação não é uma coisa odiosa, ruim em si mesma. Como na Renovação Carismática o grande perigo está no fundamentalismo, quando as pessoas que seguem uma linha acreditam que só essa espiritualidade é ser Igreja. E sabemos que nós católicos somos de uma pluralidade riquíssima. Eu apóio quem age em comunhão.

Como o senhor define a missão de bispo?
Minha missão é conduzir o povo a viver o Reino de Deus. Não se deve esperar o céu de braços cruzados. Nós devemos aprender a maneira de viver que nos faça irmãos. Estamos aqui nesse mundo com uma missão, viver o bem e fazer o bem.

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