Fé demais - J. Roberto Whitaker Penteado
Fé demais
A cada minuto, nasce um idiota. P. T. Barnum
J. Roberto Whitaker Penteado
Se há alguma coisa ainda mais extraordinária do que a inesgotável credulidade do povo brasileiro, trata-se da credulidade da nossa imprensa. A imensa maioria dos colegas jornalistas registrou, nos mais importantes veículos de informação do país, seu incontido júbilo com a imposição do novo Código Nacional de Transito. Chegasse um marciano alfabetizado ao país, na semana passada, e teria a clara impressão de que finalmente se resolvia um grande problema nacional. A nova lei vai reduzir o número de mortos no trânsito, acabar com a impunidade, diminuir o alcoolismo ao volante, reduzir o excesso de velocidade, educar os motoristas de ônibus, assim como os pedestres - etc. etc. etc.
Certa vez - um pouco para divertir-me, um pouco como catarse - reescrevi algumas fábulas antigas para ficarem mais de acordo com a nossa cultura. Uma delas é aquela famosa, do pastorzinho que gostava de enganar os aldeões, descendo o morro em disparada, gritando que o lobo estava chegando, só que era mentira. Um dia os aldeões se encheram do pastorzinho, mandaram-no ao diabo, deixaram-no falando sozinho com seus lobos imaginários. Só que, no Brasil, a mesma fábula não acaba nunca. O pastorzinho passa toda a eternidade a descer o morro, gritando que o lobo vem vindo e os burríssimos aldeões apavoram-se todas as vezes e nunca deixam de acreditar no pastor mentiroso.
Pois são assim os meus colegas jornalistas. Todos os dias escrevem nos jornais e nas revistas e comentam no rádio e na televisão que o governo vai resolver algum problema do país e todos os dias os leitores acreditam. Os governantes, é claro, esfregam as mãos de contentamento, continuam cuidando dos seus interesses pessoais e mandando os aldeões àquela parte, que parece ser, mesmo, o lugar que merecem por tanta falta de espírito crítico.
Faz uma década, perdemos um tempo precioso e insubstituível escrevendo uma Constituição absurda, impagável e incumprível, que é motivo de chacota para o resto do mundo. Mas lembro-me muito bem de que os jornais fizeram edições especiais e os escrevedores da nova lei, encabeçados pelo Dr. Ulysses Guimarães, posaram, de mãos dadas, cantando o Hino Nacional como se tivessem acabado de salvar o país.
Devo registrar, por uma questão de absoluta justiça, que, em 1988, nem todos os brasileiros entraram naquela da Constituição. Lembro-me bem de que pelo menos eu e o deputado Roberto Campos escrevemos artigos discordantes...
Sobre a nova lei do trânsito, se precisar de alguém que diga, aí vai: nada se resolverá sobre o trânsito do Brasil se não se construírem ruas e estradas decentes e sinalizadas; se as indústrias não fabricarem aqui veículos pelo menos tão seguros quando os que vendem em Cingapura; se todos os Detrans não forem retirados das mãos dos bandidos e entregues aos mocinhos; se os administradores do setor não se persuadirem de que trânsito é primordialmente um problema de educação e engenharia e só secundariamente, mas muito secundariamente, uma questão de policiamento e punição.
Mas já sou capaz de fazer uma aposta: dentro de pouco tempo haverá algum político bradando por uma campanha de esclarecimento sobre o novo Código e os meus colegas jornalistas vão entrar nessa, como das outras vezes. Parece que a fé brasileira no poder mágico das palavras - não importa quanto vazias sejam - é um fenômeno único.
A mesma edição do jornal que saudava a nova Lei com loas, em editorial, publicava a carta de um leitor carioca, Ivo Gersberg, sob o título Faz-de-conta: Brasil, imenso palco de atores. Nós fingimos ter telefonia celular. Nós fingimos ter telefonia convencional. Nós fingimos ter planejamento viário. Nós fingimos não ter corrupção. Nós fingimos ter polícia. Nós fingimos ter saúde. Nós fingimos ter salário mínimo. Nós fingimos ter memória e (...) nós fingimos ser um povo.
Bravo, Ivo. Daqui a dez anos, num próximo artigo, preciso não esquecer de acrescentar o seu nome ao dos brasileiro lúcidos - como eu e o deputado Roberto Campos.
- J. ROBERTO WHITAKER PENTEADO é diretor da Escola Superior de Propaganda e Marketing (Rio de Janeiro)





