Os cientistas sociais esforçam-se para definir o Brasil deste final de século. Uma chuva de ‘‘neos’’ e ‘‘pós’’ pululam os alfarrábios dos explicadores do caos em que estamos. Na realidade, há muita embromação para justificar mazelas tão antigas quanto a fome, que torna novamente a maltratar os estômagos dos nordestinos.
Leio algumas destas tentativas e fico pasmo com o ‘‘rigor científico’’ das impressões tão bem acabadas que explicam o Brasil pelo método confuso. Numa dialética de parvos, a fome se faz decorrente pura e simplesmente de um fenômeno meteorológico.
Justificar o que acontece no Nordeste em bases históricas, nas causas primárias, é uma heresia para quem aboliu do ‘‘seu conhecimento’’ os males do capitalismo. As ressalvas são como sempre raras. Há um pacto nojento nos meios acadêmicos de se negar sistematicamente que o homem ainda continua explorando o homem. Nosso conformismo, neste final dos anos 90, é algo sobrenatural.
Para nossos espíritos, pouco exigentes, tomar o efeito pela causa é o bastante. Os teóricos pensam o momento desconsiderando todos os fatos que o determinaram. As teses científicas descambaram para as superficialidades do agora. Tudo tem que ter uma explicação alinhada às expectativas da opinião pública, mesmo que embasada em sofismas apoiados em nuvens.
Puxo da estante o ‘‘Coronelismo, Enxada e Voto’’ do jornalista Victor Nunes Leal. De uma atualidade impressionante, embora escrito há quase 50 anos, um clássico da literatura política brasileira, este livro explica o início do coronelismo como um fenômeno ligado a um período específico da história social e política do Brasil, que se estabelece no fim do Império e cujo declínio é delimitado nos anos 30, com o término da Primeira República. Mas declínio não é o fim. O coronelismo no Brasil ainda existe, e os mecanismos para o voto de cabresto continuam quase os mesmos, fundamentados no clientelismo e dependência de governos paternalistas.
Nossos cientistas sociais, entre eles o presidente Fernando Henrique Cardoso, identificaram o fenômeno. Por quase 20 anos da ditadura militar, foram grotões como Tucano, Euclides da Cunha, Jeremoabo, Juazeiro (Bahia), Petrolina, Bocodó e Exu (Pernambuco), Crato, Campo Sales (Ceará) e Itainópolis (Piauí) que descarregaram seus votos no governo. As ironias não param por aí. Foi na Rede Globo, escudeira do regime militar, que se fez a janela pela qual se desfilou procissões de famintos captados na telinha de boa parte dos lares brasileiros.
Foi assim: numa noite, quando nada mais emocionante se esperava do que o capítulo da novela das 8, os brasileiros tiveram que interromper o jantar para ver duas meninas comendo palma cozida, vegetal cheio de espinhos, que nem mesmo o gado aceita. E desde então, o cidadão, aquele com um mínimo de consciência, não conseguiu dormir. A palavra de ordem agora é ajudar. Todos nós vamos dar um pouco do que nos sobra para os que passam fome. Mas a dúvida é: será o que vai ser doado chegará a seu destino? E se chegar, quantos votos vai render para as oligarquias locais?
Com o perdão de Bandeira, mas Fernando Henrique reescreve de forma marota um de seus poemas. ‘‘Vou-me embora para Tejuçuoca. Lá está cheio de mortos de fome. Vou-me embora para Tejuçuoca, no Vale do Curu, no meu ensolarado Ceará. Em Tejuçuoca sou amigo do coronel, que vai trocar uma porção de votos pelo silenciar do ronco de estômagos vazios. Lá vou demonstrar, com o meu saber sorbônico, a impossibilidade de se fazer sociologia no Brasil sem homens comendo calangos. O compadre Lula também vai, mas para outros currais: Quixeramobim e Jaguaruana’’.
- JOSÉ FERNANDO DA SILVA é jornalista em Curitiba.

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