As liquidações que o comércio promove em janeiro, se beneficiam os compradores e desovam estoques das lojas, são também indicativos de que não é conveniente comprar fora desta época. E isto pode conspirar contra o comerciante, porque leva a clientela a imaginar que tudo o que é vendido em dezembro e nos meses antecedentes é mais caro. Uma freguesa, citada em reportagem de ontem deste Jornal, serve como referência. Ela diz que ''no final do ano os preços sobem'', então espera janeiro. Se nos meses regulares uma geladeira tem um determinado preço (fato citado na reportagem), e neste primeiro mês do ano é possível comprar esse bem e mais um fogão com o mesmo dinheiro, então ou a loja perde na liquidação ou especulou demais anteriormente. Parece mais sensato fazer as tais queimas de estoque durante todo o ano, ganhando menos no porcentual de lucro mas faturando mais no volume de vendas. Esta é a estratégia de comerciantes mais experimentados, que por isso prosperam mais e têm sempre as lojas cheias de fregueses. Verdade que, nas liquidações, certas mercadorias são vendidas a preço mais baixo por possuirem algum defeito ou serem peças de mostruário, mas isto é exceção. É certo que em janeiro compra-se quase tudo mais barato, desde alfinete a automóvel, a não ser os produtos de alimentação. Se em tempo de ''bota fora'' muitos são beneficiados (e o comércio também), outros tantos perderam por comprar no período de alta temporada entenda-se em dezembro, principalmente, em função das festas de Natal e fim-de-ano. Outra prática nada convincente é dizer ao freguês que o preço a prazo é o mesmo do preço à vista. Óbvio que se uma mercadoria custa ''x'' em 12 ou 24 meses, deveria ser vendida a preço mais baixo à vista. Ou então devemos acreditar que não existem juros neste país. Há, de parte das lojas, mais interesse na venda a crédito, pelo ganho na lucratividade normal e pelo acréscimo de renda obtido na operação do crediário. O comércio utiliza-se de seus expedientes, de forma a obter a maior margem possível de ganho o que é meta de todo negócio mas é certo que poderia ser mais transparente na relação com o freguês e assim todos ganhariam mais, porque pelo maior volume de vendas as fábricas aumentariam sua produção, haveria maior movimentação financeira, mais arrecadação de tributos, mais empregos. E menos lamentações por baixas vendas. Uma mudança de tática e a adoção do sistema de liquidação permanente um fluxo regular e uniforme provocaria uma revolução desenvolvimentista. Quem comprou um produto em dezembro e agora o vê sendo vendido a 30% menos (e em alguns casos até 50%), sente-se de certa forma lesado, embora seja de seu conhecimento que assim tem sido. O comércio é a extremidade final de toda a dinâmica da produção, porque é o que vende aquilo que é produzido. Por isso converte-se num regulador da própria cadeia produtiva. Se o comércio vende pouco por vender caro, a fábrica é obrigada a andar no mesmo ritmo, e todo o encadeamento envolvido segue em idêntico diapasão.

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