Fazendas de caça no Paraná - Edna Cardozo Dias
Fazendas de caça no Paraná
Edna Cardozo Dias
A primeira tentativa de se legalizar a caça no Paraná foi em 1988, por recomendação do ex-Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal (IBDF), depois do 1º Encontro Nacional de Manejo da Fauna Cinegética realizado em maio de 1988, em Curitiba. Diante de exaltada manifestação popular contra o projeto, foi sancionada a Lei 8.946, de autoria do deputado Paulo Furiatti, proibindo neste Estado a caça e a pesca predatória, assim como os esportes, espetáculos e atos públicos ou privados que envolvam maus-tratos ou a morte de animais, independente de sua espécie, raça, de sua origem exótica ou nativa, silvestre ou doméstica e de sua quantidade.
Os ecologistas ficaram tranquilos até 1990, quando novamente, na elaboração da lei de meio ambiente do Paraná estava embutido artigo que previa a criação de zonas cinegéticas, mas felizmente foi vetado.
Agora, por iniciativa do deputado Aníbal Khoury, o governador do Paraná, Jaime Lerner, sancionou a Lei 12.603/99, que altera a lei do deputado Furiatti. Segundo as modificações, fica autorizada a instalação de fazendas de caça para animais de espécie exótica ou oriundas de criadouros de animais silvestres devidamente regularizados. Isto significa a introdução de um novo negócio no País: empresas que criam animais com a finalidade de matar.
Não podemos deixar de citar a existência, no Paraná, da Fazenda de Caça Marimbondo, com 7 quilômetros habitados por animais exóticos destinados à caça esportiva. A fazenda conta com licença do Ibama, uma vez que as licenças rendem taxas àquele órgão.
Essas fazendas, em moda nos EUA, costumam receber animais velhos e descartados, comprados em zoológicos e circos. São animais já acostumados com a presença humana, semidomesticados, que são fuzilados ou flechados sem misericórdia, e sem esboçar qualquer intenção de fuga. Costumam ser alimentados sempre no mesmo local, onde provavelmente serão facilmente fuzilados pelos ruins de pontaria, em troca de dinheiro. O golpe é à queima-roupa mesmo, nem é preciso a perseguição.
Coincidentemente ou não, iniciou-se uma campanha, em 30 de novembro de 1998, em nível mundial, para se proibir a caça na Europa a partir do ano 2000, principalmente a caça com cães. A campanha está encabeçada pela Protection of Hunted Animals, e encampada pela Internacional Fund for Animal Welfare, League Against Cruel Sports e Royal Society for the Prevection of Cruelty to Animals.
Paralelamente, nos EUA, inicia-se campanha contra o porte de armas para diminuir a violência. Lá existe o direito constitucional ao porte de armas. Ou seja, tudo nos leva à conclusão de que, comerciantes brasileiros de munições temem queda na venda de armas, e que os caçadores de outros países estão de olho no Terceiro Mundo.
Ainda nos EUA, o National Rifle Association, fundado em 1871, que declara ser a mais poderosa organização de caçadores naquele país, e a National Shooting Sports Foundation se empenham em formar uma cultura para a caça. Esta última desenvolveu o Projeto Wild, distribuído gratuitamente entre 130 mil professores. O resultado foi uma crescente violência entre os jovens e até crianças nos EUA. Não é ao acaso que tantas tragédias ocorrem, quando indivíduos desequilibrados, equipados de poderosas armas, promovem verdadeiro massacre.
Em 1998, ocorreu uma chacina no Arkansas, que horrorizou o mundo. Mitchel Johnson, de 13 anos, e Andrew Golden, de 11 anos, mataram várias pessoas na escola pública de Jonesboro, dois dias depois de um violento massacre. Em entrevista à TV CNN, que foi divulgada em canais de todo o mundo, os pais dos garotos confessaram que desde cedo ensinaram as crianças a atirar e levavam-nas à caça, com os adultos.
Estudos demonstram que a crueldade contra o animal é um passo inicial de um potencial criminoso. A vida de assassinos em massa e criminosos violentos demonstra que esses, quando crianças, infligiam maus-tratos aos animais. Albert Desalvo, o estuprador de Boston, na juventude prendia cães e gatos em caixotes de laranjas e atirava flechas através das tábuas. Em 1973, Desalvo foi encontrado morto em sua cela, esfaqueado no coração. Jeffrey L. Dahmer - serial killer, desviado sexual, que confessou ter canibalizado 17 homens e meninos - quando criança empalava rãs, decapitava cachorros e prendia com estacas gatos em árvores no seu quintal. Em fevereiro de 1992, ele foi condenado, e depois morto por outro interno em 1994. Ted Bundy, serial killer e estuprador (1973 a 1978) foi executado em 1989. Durante sua infância, ele torturava animais e testemunhava a brutalidade de seu pai contra os animais.
As fazendas de caça são socialmente inaceitáveis, pois são locais onde animais silvestres podem ser mortos sem grande esforço; basta se pagar gorda importância em dinheiro. E um fim de semana de matança pode se transformar num mero passatempo de indivíduos perversos e insensíveis.
- EDNA CARDOZO DIAS é advogada ambientalista, presidente da Liga de Prevenção da Crueldade contra o Animal e vice-presidente para as Américas da Organization Internacionale pour la Protection des Animaux, em Belo Horizonte





