Gaudêncio Torquato
O ano de 1999 ficará registrado nos anais da política brasileira como o ano do início do ciclo da faxina. Isso mesmo. O Brasil está passando por uma fantástica faxina e, por incrível que possa parecer, os faxineiros são originários da classe política, que é das mais execradas pela opinião pública em função de práticas, costumes e métodos nem sempre inspirados no valor da ética, da decência e da dignidade.
Tanto a Câmara como o Senado estão dando exemplos de grandeza, ao decidirem limpar a sujeira escondida por baixo do tapete. As CPIs em andamento – principalmente a do Narcotráfico, na Câmara, e a do Judiciário, no Senado – estão lancentando tumores protuberantes e, com isso, levando a sociedade a recuperar a crença na instituição política.
O mérito do Congresso é o de estar agindo com vontade política para ir ao fundo da corrupção e desmontar as malhas criminosas que praticamente se estendem por todo o território. O Brasil está inundado por uma maré de lama, que suja políticos, empresários, promotores, juízes, advogados, policiais, muitos mancomunados com deliquentes de todas as espécies.
É surpreendente verificar que as máfias agem em todas as partes, do norte ao sul, do leste a oeste, transformando o País em um dos mais proeminentes Estados no ranking da barbárie. De corredor de passagem de drogas, está se tornando um dos principais consumidores e isso é uma tragédia, principalmente quando se leva em consideração a devastação que a droga provoca nos contingentes jovens, que constituem o pedestal do futuro, os construtores do amanhã, a geração da esperança.
Afinal de contas, nas décadas anteriores, o Brasil era mais ético, mais puro, menos corrupto? Essa é uma questão que gera controvérsias. Sempre houve corrupção, desde a partilha das capitanias hereditárias. Houve ciclos de maior corrupção e, em outros momentos, até se podia perceber certo arrefecimento de ações criminosas.
A verdade é que, nos últimos tempos, a rapinagem e as redes criminosas se intensificaram, em função da imbricação estreita entre as malhas dos poderes constituídos. A política passou a ser um grande negócio. E como empreendimento, contaminou certos atores do universo institucional. Daí a conivência entre juízes e políticos, empresários e juízes, e entre estes e redes criminosas.
Da parte do narcotráfico, há de se lembrar que os cartéis colombianos, com apoio da guerrilha, expandiram os negócios e o Brasil, com seu imenso território, passou a ser uma geografia ideal para a droga. A tecnologia, a rede bancária, o sistema de transportes, por sua vez, dão amparo às redes e estas, percebendo que podiam utilizar políticos inescrupulosos, cooptaram alguns, escolheram locais estratégicos, definiram centrais de operação – como Campinas – e montaram uma fabulosa estrutura operativa.
E por quê tudo isso tem vindo à tona? Porque a sociedade organizada acentuou a visão crítica. Estamos vivenciando o ciclo da democracia representativa, que se sucede à democracia de massas. Nela, as entidades intermediárias agem com força e controlam os fluxos políticos. Os meios de comunicação, por sua vez, perceberam as novas demandas sociais, abrindo para elas grandes espaços. Eis aí a chave do segredo: pressão social, de um lado; ecos da imprensa, de outro.
O Poder Legislativo, ante esses dois fogos, não tem alternativa. Como representantes das parcelas sociais, os parlamentares decidiram agir, até para resgatar a abalada credibilidade da classe política. As CPIs, portanto, fazem bem à Nação. E devem ser imitadas no âmbito dos Estados. Um risco que as cerca é a natural tentação que o brilho da mídia provoca em seus integrantes. Querem aparecer como heróis, vingadores do povo, são jorges com espadas para matar os dragões das drogas e os tubarões dos oceanos de corrupção.
Embalados por esse clima, podem cometer desatinos, como mandar prender sem provas, fazer da CPI circo para as TVs e jornais, privilegiar a estética da investigação em detrimento de uma semântica discursiva, base da seriedade e do respeito.
Que o Brasil está passando por uma faxina, isso está. Mas é preciso ficar atento. A vassoura não pode ser mais suja do que o lixo.

mockup