A cena não difere do retrato do Brasil: entre shoppings centers, arranha-céus e imóveis de luxo, uma favela desponta, ganha vida e abriga cada vez mais moradores. Recente estudo trouxe que as condições de pobreza e desigualdade social na América Latina fazem com que mais de 45% de sua população viva em favelas. Diante do fenômeno da favelização e da inoperância do primeiro e segundo setores, ONGs e entidades filantrópicas ganham força. Na Rocinha - na lista das maiores favelas da América Latina - não é diferente.

Criada pelo rapper Gabriel, o Pensador, a ONG Pensando Junto surgiu da indignação do intérprete ao avistar, num semáforo, crianças fazendo malabares em troca de dinheiro. E hoje atende uma parcela da população da Rocinha, com direito à fila de espera. Em entrevista à FOLHA, o secretário da Pensando Junto, Luis César Mello, sugere a ação de todos os setores da sociedade, para acompanhar a eclosão de periferias e consequentes desigualdades e índices nas alturas de criminalidade.

Sabe-se que no Brasil, a exemplo de muitos países, há o preconceito de endereço. Como mudar essa realidade?
Que há o preconceito de endereço é notório. Agora, em relação à mudança, realmente ficamos nas mãos do governo e da iniciativa privada. Com esse tipo de apoio, especialmente as crianças têm condições mais dignas de um horizonte promissor. Consequentemente, o preconceito diminui.

A Rocinha é a maior favela da América Latina, com 250 mil habitantes. As pessoas da comunidade querem sair da condição da exclusão?
Percebo que sim, apesar da facilidade maior ser o desvio, pendendo para a criminalidade e o tráfico. As crianças, principalmente, que é com quem temos mais contato, querem ter um futuro diferente do que aquilo que é mostrado na comunidade.

Hoje a ONG Pensando Junto tem até fila de espera. Em linhas gerais, como desenvolver um trabalho social dentro de uma favela?
Temos que atrair as crianças e a melhor forma de fazer isso é preenchendo seu tempo com atividades que desenvolvam suas potencialidades. Na Rocinha, por exemplo, apostamos em oficinas e aulas de cidadania, prevenção ao sexo, entre outras temáticas.

No universo de crianças de 4 a 17 anos, quais os resultados mais satisfatórios?
Sem dúvidas estamos obtendo resultados muito satisfatórios na faixa etária dos 8 aos 15 anos. A resposta tem sido melhor do que com aqueles que chegam com uma certa idade, próximo aos 18 anos. A palavra-chave é prevenção. Essa resposta é bem mais significativa por conta disso. Quando falamos em prevenção, o trabalho fica mais fácil.

O senhor acredita que o Brasil seja referência no Terceiro Setor?
Sim, hoje o Brasil é modelo de Terceiro Setor e, com o tempo, temos grande parte da iniciativa privada (Segundo) e do governo (Primeiro Setor) começando a entender isso também. Carecemos de bons projetos sociais.

A indignação do fundador da ONG, Gabriel, o Pensador e dos demais membros mudou seis anos após a criação da Pensando Junto?
Não. Ainda temos muito que fazer, somos a ponta do iceberg. O Brasil urge por outros projetos contemplando várias comunidades e, infelizmente, ainda há muitos malabares e mascates nos sinais de trânsito, à espera de uma oportunidade.

mockup