Fatos que vão perigosamente virando coisas - Rubem Azevedo Lima
PUBLICAÇÃO
domingo, 15 de novembro de 1998
Rubem Azevedo Lima 
Além de uma crise econômica, dois escândalos políticos. Três fatos que põem o Brasil na primeira página dos jornais em todo o mundo. E o pior dos fatos, segundo Guimarães Rosa, é quando eles começam a virar coisas. Quanto à crise, estranha-se que o País espere tanto da ajuda que receberá via FMI, de US$ 41 bilhões. São recursos, dizem os técnicos, destinados basicamente a garantir investimentos externos no Brasil. E os investidores ainda pensam na Petrobras, como penhor do novo empréstimo.
Um dos escândalos é o caso dos grampos telefônicos e suas facetas inquietantes, como a declaração atribuída ao ministro Mendonça de Barros, segundo a qual uma das empresas ganhadoras do leilão de nossas estatais de telecomunicações fora uma telegangue. Por que se deixou que parte do esforço de trabalho dos brasileiros caísse nas mãos de uma gangue?
Outro escândalo é o dossiê do suposto depósito de US$ 368 milhões num banco das Ilhas Cayman, em nome de FHC, do ex-ministro Sérgio Motta, do governador Mário Covas e do ministro José Serra.
Não é a primeira vez que o nome de Motta - que morreu em abril - surge em controvérsias, envolvendo tanto dinheiro. Em 1995, Pimenta da Veiga, dirigente do PSDB, desentendeu-se com o ministro ao pretender guardar as sobras da campanha de FHC, estimadas em R$ 400 milhões, nos cofres partidários para qualquer emergência. Venceu a tese de Motta, de manter o dinheiro em São Paulo. Pimenta deixou a direção do partido.
Em junho de 97, o nome de Motta estava em gravação obtida pela Folha de S. Paulo, como um dos intermediários da compra de votos de deputados para aprovar, no Congresso, a reeleição de FHC. A oposição quis apurar o assunto numa CPI, mas teve de contentar-se com uma sindicância na Comissão de Justiça da Câmara, sem poderes para, eventualmente, enquadrar o ministro.
Ali, Motta considerou a gravação autêntica, mas incompleta, e atacou dois deputados que o citavam nas fitas e haviam renunciado ao mandato. A fim de provar que o ministro ligara dez vezes para um dos renunciantes antes de aprovada a reeleição, o deputado Valdemar Costa Neto o desafiou a abrir o sigilo de seus telefonemas. As condições impostas pelo desafiado inviabilizaram o desafio.
Já o deputado Vicente Cascione embatucou Motta, ao indagar por que ele responsabilizava os renunciantes pela gravação - que lhes custara o mandato - mas achava que ambos haviam citado seu nome, gratuitamente, como comprador de votos. O ministro fez longa e desconexa digressão, condenando, sob aplausos da maioria, o denuncismo político no Brasil. A sindicância acabou em pizza.
Como acabarão tais escândalos? Não se sabe. Sabe-se que FHC ficou politicamente mais frágil, aqui e no exterior, enquanto a crise continua. E os fatos, perigosamente, vão, cada vez mais, virando coisas.


