Revistas como a Forbes divulgam anualmente as listas das pessoas mais ricas do mundo. Há também o ranking da influência, da beleza, da popularidade. Nos tempos em que o individualismo é ventilado como sinônimo de sucesso, a competitividade atinge seu clímax e tudo pode ser embalado e vendido, soa o alerta: onde vamos parar? Por que consumimos tanto? Para o professor de filosofia João Vicente Hadich Ferreira, já passou da hora de puxar o freio.

No bate-papo com a FOLHA, João Vicente ratifica um conceito que sempre passa aos seus alunos: o pensar filosófico. ''Precisamos rever a realidade, ler as entrelinhas e ver o que está atrás da sociedade de consumo, com sua avalanche de comerciais e propagandas e não apenas recebê-los sem a mínima criticidade'', sustenta.

Em que consiste o pensar filosófico na sociedade do fast food?
Em repensar a sociedade que existe hoje sem nenhum pieguismo ou utopismo. Atualmente, estamos cada vez menos acostumados ao exercício do pensar, porque vivemos na sociedade em que tudo é consumível: as relações, os pensamentos, o modo de viver... Costumo dizer que a sociedade do fast food é mais da informação do que da formação. Temos outdoors, diversas mídias, tudo a ser digerido de forma rápida. Há uma avalanche de informações e estas não são digeridas.

Como essa escravidão diante das informações e da oferta de bens de consumo funciona para o cidadão voltado a ''vencer''?
Trata-se de um paradoxo. Queremos tanto ser os melhores, os primeiros e no fim não conseguimos ser nós mesmos. Resultado: há uma desumanização e, nessa relação, temos índices altíssimos de doenças da mente, como a depressão. Hoje, quanto mais temos, menos somos. Em países de primeiro escalão, a prova cabal é vermos jovens bem-nascidos comprando armas e promovendo banhos de sangue.

Mas não temos como voltar nos tempos das cavernas...
E não defendo isso. A questão é que vivemos em uma sociedade estritamente de consumo. Criamos essa sociedade em que tudo se torna obsoleto. Estamos com os piores parasitas, que exaurem todos os recursos de seu hospedeiro e depois morrem junto. Temos o aquecimento global, estamos acabando com os recursos do planeta e ficamos fazendo algumas coisas paliativas: enquanto pedimos para as donas de casa economizarem água, as indústrias acabam com nossas reservas.

China e Índia estão abertas ao capitalismo. Eis um alerta?
Com certeza. Imagine só: se hoje os norte-americanos consomem, em média, 20 a 30 vezes mais que os indianos, quando China e Índia crescerem e seus mais de 2 bilhões de habitantes consumirem o que os norte-americanos consomem, nos veremos à beira de um colapso. Aliás, já estamos: a sociedade chinesa forma, há duas décadas, famílias de um filho só. Trata-se de um exército de pessoas aptas ao individualismo e ao consumo.

O senhor não considera importante competir?
Sim, já nascemos competindo, mas essa competitividade selvagem e desenfreada nos torna menos humanos: somos preparados para não nos frustrarmos e não perdermos. Na sociedade perfeita, banalizamos a vida e a morte. Os pais não levam seus filhos aos enterros e não apresentam demais realidades a eles, mas, ao mesmo tempo, a família senta à mesa e assiste ao programa policial, no horário do almoço. Nessa sociedade do fast food, tudo acaba se convertendo em número e engrossando as estatísticas.

E o Brasil é diferente?
Não. Vamos com a corrente: os gostos e tendências são iguais e há a uniformização. Costumo dizer que se não sabemos quem somos, para onde vamos e o que queremos, fazemos jus aos ditos do marxismo. Aquilo que se criticava no socialismo real, em que as pessoas tinham de ficar vestidas de maneira idêntica, não é muito diferente da sociedade atual que padroniza tudo. Hoje, vivemos uma homogeneidade diferente daquela proposta pelo socialismo real, mas com características de um sistema. E o sistema funciona assim: não há um culpado, ninguém conhece, mas ele está aí.

O que podemos fazer?
A tarefa não é fácil, mas, com um pensar filosófico, precisamos rever a realidade, ler as entrelinhas e ver o que está atrás da sociedade de consumo, com sua avalanche de comerciais e propagandas e não apenas recebê-los sem a mínima criticidade. Li, recentemente, uma frase apropriada para a resposta. ''A democracia que essa sociedade prega é a democracia da liberdade de consumo. Se você não consome, você não vive''. Fica difícil discordar: a recente lista com as 220 pessoas mais ricas do mundo mostrou que elas detêm fortuna superior ao PIB de vários países. Com isso, o sol não é para todos e a sombra revela uma briga de foices.

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