Farsas & ‘‘farsas’’
O mérito desta opinião não é a atuação da PM paraense, se agiu corretamente ou não, se estava bem treinada ou não; também não é sobre a atitude dos sem-terra, se foi correto terem obedecido a palavras-de-ordem que vinham de um caminhão de som, e avançado contra policiais armados, ao invés de terem simplesmente obedecido à determinação policial e negociado a desocupação pacífica da rodovia. A questão, aqui, são os desdobramentos ocorridos imediatamente após o veredicto, que absolveu, por falta de provas, os oficiais responsáveis pela malsinada operação.
À parte os protestos dos militantes do MST, concentrados do lado de fora de onde se realizava a sessão, na Universidade da Amazônia - porque indignação, revolta, clamor não são reações incomuns em quem sofre revezes da Justiça - o que chamou mais a atenção, no começo da semana passada, foi a precipitação de alguns veículos de imprensa. ‘‘Precipitação’’, para dizer o mínimo. Tão logo acabou aquele julgamento, rumores de insatisfação fizeram música de fundo para alguns depoimentos de políticos, lideranças dos sem-terra, Ongs etc. E em meio aos desabafos, uma denúncia surgiu: um dos jurados teria dito que um outro jurado, Sílvio Mendonça, lhe oferecera R$ 3 mil para favorecer um dos acusados. Quem fez essa denúncia foi a vice-prefeita da capital do Pará, filiada ao Partido dos Trabalhadores. Ela disse isso em entrevistas concedidas a jornais, revistas, rádios e TVs. No início, não disse o nome do denunciante, por alegadas razões de segurança, e ainda acrescentou que um empresário (o nome ela também não disse) lhe telefonara afirmando que o valor seria de R$ 130 mil se o favorecimento funcionasse.
Muitos veículos deram essa notícia como um monumental furo. Para exemplificar, a revista ‘‘Época’’, semanário de circulação nacional, colocou uma foto do jurado que teria proposto a suposta propina sob o título ‘‘Farsa’’. E a reportagem (‘‘A farsa de Belém’’) carregou nas tintas a tal acusação, realçou aspectos polêmicos do perfil do referido jurado, exaltou a vice-prefeita, criticou a pouca experiência do promotor de Justiça, e concluiu que o episódio tinha sido farsesco.
Esses primeiros dias após o veredicto ficaram assim nebulosos. Pelo menos, enquanto a vice-prefeita manteve em sigilo o nome do tal jurado - pois quando finalmente se soube a identidade do pivô da denúncia, as nuvens se dissiparam. O cidadão, Fernando Brito, primo do prefeito (também petista), tinha sido pré-selecionado para participar do conselho de sentença, e nessa condição esteve presente na reunião dos jurados pré-selecionados, dias antes do julgamento. E nessa reunião é que ele teria ouvido do jurado Sílvio a estória do suborno. Mas ele reconheceu que tudo fora dito em tom de brincadeira, de ironia - e o próprio Fernando ainda respondera, brincando, que R$ 3 mil era pouco, que, no mínimo, tinha que ser R$ 5 mil.
Foi dessa forma que alegações evasivas, destituídas de provas, jogadas no ventilador da mídia, mancharam o Poder Judiciário brasileiro, desacreditaram a instituição do tribunal do júri - na qual é o povo quem julga - e tornaram muito difícil a vida do jurado Sílvio Mendonça, que, além das ameaças que tem recebido, ainda terá que responder a inquérito instaurado pelo Ministério Público. Tudo isso, talvez, porque foi Sílvio o jurado que insistiu na exibição, repetidas vezes, da fita de vídeo onde estão as imagens do conflito, apontando o disparo feito pelo sem-terra, e declarando: ‘‘Agora fica comprovado que havia sem-terra armados no começo do conflito’’.
Seja lá como for, mesmo que os esclarecimentos demonstrem um lamentável ‘‘mal-entendido’’, dificilmente a opinião pública se esquecerá de Sílvio, o suspeito condenado pela prensa apressada.
- JOEL SAMWAYS NETO é escritor e procurador do Estado em Curitiba

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