Farsa você mesmo
TT Catalão
Tanta gente tenta lhe enfiar alguma opinião, sensação ou produto goela abaixo. O massacre mass-mídia vai de folhetos nunca lidos, mensagens eletrônicas e doutrinações explícitas ou sutis. Não fomos educados para discriminar criticamente tal assédio impertinente e seus truques mas aprendemos que faz parte do jogo separar o que é lixo.
Mas há assuntos e pessoas que nos vencem pelo cansaço. A propaganda dos governos sabe disso. A arrogância do poder também. No primeiro caso tivemos a dúbia declaração do presidente da República que ‘‘ninguém come em dólar’’. No segundo, a infeliz ofensa do presidente do Congresso ao presidente dos ‘‘Diários Associados’’ reforçando a idéia do quanto o exercício muito prolongado da autoridade cria vícios autoritários.
Nos dois casos há a institucionalização da farsa bem-sucedida. Em uma imagem de que a crise já passou e no outro de que os tempos da ditadura não passaram e há soberanos, ainda. Dependendo do observador, os dois pontos de vista estão corretíssimos ou extremamente equivocados.
FHC, mesmo comedido, colabora com alguma euforia. Se o governo vibra bem pela ‘‘crise controlada’’, finge mal a farsa de que ‘‘o pior já passou’’. O dólar que retorna é o do velho motel especulativo atraído pelo real desvalorizado. E o capital produtivo? O investimento em infra-estrutura? E os cortes na área social? Qual crise está sob controle, enfim? O tal fenômeno do dólar-bode fatalmente ocorreria - quando o bode fedorento sai da sala pequena todos começam a achar a sala magnífica. O bode foi o dólar chegar a R$ 2 para a festa do patamar em R$ 1,70.
Mas a desvalorização serviu como impulso para aumentos qualificados para quem está abaixo da linha de cobertura do Brasil fantástico show da vida: os excluídos. Estes não comem em dólar mas sofrem os repasses dos aumentos. Portanto, passam fome em dólar.
Quanto ao deselegante destempero verbal do senador percebe-se algo mais além da mera retórica agressiva. Reincidiu uma atitude muito comum da velha intimidação. A polidez com que foi respondido e a publicação dos fax em primeira página aplicou a máxima da vítima cidadã: não cale, não se esconda, não tema, denuncie! A força tem seu dia de farsa. Demonstrar que estamos sofrendo pressões ilícitas é uma forma de restaurar nossa dignidade. Isso precisa contagiar o País para anularmos as farsas.
O movimento estudantil dos anos 60 exclamava: ‘‘Quero cometer meus próprios erros’’. Isso não significa repetir, estupidamente, caminhos furados, mas ter autonomia de busca e estar em construção consciente para a maturidade.
A farsa soa farsa para quem assim a percebe. Quem acredita muito nela torna-a até real, para si e seu grupo. Mas quem não está na festa, desconfia. Cabe à imprensa, ora alvo, ora artilharia, continuar alerta, atenta, sem se calar, sem esconder. Até que as farsas caiam por si ou provem o contrário.
- TT CATALÃO é jornalista em Brasília

mockup