FARRA DOS CARTÕES - Tem cheiro de pizza no ar
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 15 de abril de 2008
Paula Costa Bonini<br>Especial para a FOLHA 
A crise que envolve o uso de cartões corporativos veio à tona em 24 de janeiro, quando o Ministério Público Federal (MPF) abriu investigação sobre gastos excessivos por parte de membros do governo. O escândalo, que está sendo averiguado por uma Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI), já derrubou a então ministra da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, Matilde Ribeiro (PT-SP), acusada de gastar mais de R$ 170 mil no cartão com viagens, restaurantes e free shops.
Em entrevista à FOLHA, a presidente da CPMI, senadora Marisa Serrano (PSDB-MS), fala da acusação feita ao senador Álvaro Dias (PSDB-PR), que tornou público o escândalo, dos resultados da investigação, da blindagem do governo e sentencia: estou tendo a impressão de que vamos chegar ao fim sem poder dizer à sociedade se o dinheiro dela está sendo bem gasto ou não.
Por que uma CPI para apurar os gastos?
Como se trata de uso irregular do dinheiro público, é necessário prestar contas à população. Tanto houve uso irregular que a ministra Matilde Ribeiro pediu demissão do cargo. O ministro do Esporte, Orlando Ribeiro, precavidamente devolveu R$ 30 mil. Nunca vi isso, mas ele fez um caixa e devolveu o dinheiro. E houve o ministro da Pesca, Altemir Gregolin, que também teve que devolver dinheiro.
O Senador Álvaro Dias está sendo acusado de quê? Qual foi o interesse dele?
A base do governo diz que ele é culpado. Mas culpado de quê? Simplesmente ele soube que estava ocorrendo uso irregular do cartão e divulgou isso. Foi a coisa mais certa que ele fez. Se nesse país nós temos que esconder embaixo do tapete as irregularidades, estamos indo muito mal.
Quais os resultados da CPI até agora?
Estamos tendo uma dificuldade imensa de investigar qualquer coisa. A base do governo vota contra e eles representam a maioria: estão em 16 e a oposição em sete. Quinta-feira passada coloquei 30 requerimentos para serem votados, todos pedindo para que membros do governo viessem ao Congresso para expor seus ecônomos (pessoas que recebem os cartões e pagam as contas). Muitos deles gastaram num ano R$ 700 mil e nós precisamos saber para onde foi esse dinheiro. A base do governo rejeitou sistematicamente todos os requerimentos. Com todos os pedidos negados, não há documentos a serem analisados. Há uma blindagem completa.
A cientista política Lúcia Hipólito disse que o governo consegue mudar o enredo de episódios nos quais se encontra em situação adversa. A senhora concorda?
Sempre muda o enredo. Quando estourou na revista Veja o dossiê (suspeitas da montagem de um suposto dossiê sobre os gastos do ex-governo Fernando Henrique Cardoso), no dia seguinte o vice-presidente José Alencar falou que era importante o Lula continuar num terceiro mandato. A partir daí, todo o Brasil se voltou para discutir isso.
E a oposição, está desunida ou tímida para acusar e discursar?
Eu nunca vi a oposição tão unida como agora. Todos estão trabalhando juntos. Dias atrás eles pediram um almoço na minha casa para me dizer que toda a oposição (PPS,PSOL, Democratas e PSDB) quer uma investigação completa e votaria a favor de qualquer requerimento que eu colocasse. Eles estão a disposição para investigar qualquer governo. A situação, muito maior, é que não deixa a oposição aprovar nenhum requerimento.
Na sua opinião, como vai ser o desfecho da CPI dos Cartões?
Eu gostaria que a CPI pudesse dar uma resposta à sociedade. Mas, infelizmente, estou tendo a impressão de que vamos chegar ao fim sem poder dizer a sociedade se o dinheiro dela está sendo bem gasto ou não.


