Cartões de crédito corporativos, oferecidos para membros do governo federal cobrirem gastos administrativos e emergenciais sem necessidade de licitação, foram usados para pagar despesas em restaurantes, choperias, joalherias e locadoras de veículos. Resultado: R$ 75 milhões em gastos no ano passado e mais uma crise no alto escalão do governo Lula, que resultou na demissão da ministra Matilde Ribeiro, da Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, e levantou a discussão sobre a responsabilidade do uso do dinheiro público.

Em entrevista à FOLHA, o cientista político Mário Sérgio Lepri afirma que o episódio é reflexo do ''vício'' da estrutura patrimonialista do Estado brasileiro, e da imagem errada sobre o papel de quem trabalha para ele. ''É preciso reforçar a idéia de que a função do servidor público é servir, não se servir. O imposto no Brasil é um dos mais altos do mundo, e o serviço é muito ruim''.

O episódio dos cartões corporativos é mais uma mostra de que os políticos têm o hábito de confundir público com privado?
Sem dúvida. Isso é uma característica do Brasil, que vem desde quando a família real chegou aqui, com a estrutura de um Estado patrimonialista - a apropriação do que é público pelo privado. E isso é um vício. Ao chegar ao poder, há a noção de que não será cobrado, porque não faz parte da cultura brasileira a idéia de que há transparência, de que o Estado é um prestador de serviços. O indivíduo recebe o cartão, sabe que não será cobrado por nada, e aí passa a ser normal essa atitude de favorecimento próprio. É uma relação promíscua com o bem público.

Dá para pensar em controle efetivo do uso do cartão corporativo?
O problema está neste costume patrimonialista. Não adianta abolir este sistema, porque o Estado gasta. No formato eletrônico, aparece o local, o dia e o horário no qual a compra foi feita. É um mecanismo até interessante. O grande nó está exatamente na promiscuidade, na forma como o brasileiro não tem noção do quanto o Estado é caro para o próprio cidadão.

Membros do governo citaram que essa transparência nos gastos afetaria a segurança nacional. O senhor concorda com este argumento?
É incorreto. Houve transparência de gastos com relação à segurança do presidente, e eles acharam que não deveria ser divulgado. Mas é o contrário: tem que ser transparente em tudo. Se vai gastar no cartão, vai para o patrimônio público. O cartão funcionaria desse jeito, mas infelizmente é usado para fins próprios. É preciso reforçar a idéia de que a função do servidor público é servir, não se servir. O imposto no Brasil é um dos mais altos do mundo, e o serviço é muito ruim. Essa conta não fecha, porque o gasto é péssimo.

A polêmica dos cartões corporativos acompanha uma sequência de escândalos do atual governo, como mensalão, dinheiro na cueca, entre outros. Na sua opinião, esses episódios mostram que o PT não se adaptou ao poder?
A linguagem do PT sempre foi ideológica, de que o Brasil vai mal por culpa da elite corrupta. O erro do PT foi não aprender a administrar bem. Discutiram a questão ideológica e esqueceram a questão pragmática. É gastar corretamente, ser transparente, é não ter amigos que perderam eleição e dar cargos para eles. Aí tem que abrir Ministério da Pesca, da Igualdade Racial, que rendeu toda essa polêmica do cartão. Isso é má administração, falta de visão de longo prazo. O PT perdeu uma grande chance, porque o Brasil tem uma situação econômica interessante diante do cenário mundial. É o ponto ideal para fazer reformas importantes como a trabalhista, previdenciária, tributária. Mas o partido está nadando em uma popularidade muito grande e continua fazendo este jogo mesquinho, imediatista.

Como o senhor avalia o papel da oposição diante desses erros de administração?
Há necessidade de discutir o Brasil neste aspecto de longo prazo, e a oposição também não pensa nisso. A democracia no Brasil ainda é recente. Nós só conseguimos aprovar as coisas quando tem vantagens para grupos políticos, por isso que o gasto público da Câmara Federal é exorbitante. Tudo faz parte de um jogo político. A grande frustração daquele que votava no PT é exatamente essa: o PT gostou do jogo das negociatas, do compadrio.

O PT tem uma certa tendência de se colocar como vítima diante dos escândalos?
Quando era oposição, o partido fazia o papel de algoz. Membros como José Dirceu, José Genoíno, Aloízio Mercadante, tinham uma tropa de choque de pessoas que iam vasculhar documentos para depois veicular na imprensa. Hoje ele tenta se colocar como vítima de um complô da elite, o que eu acho incorreto. Isso não cola mais. Essa tendência de se fazer de vítima pode estar ligada ao apelo popular que o presidente Lula carrega, porque ele vem de uma situação de preconceito. Mas ele sabe que não é assim. Se tiver elite hoje no Brasil, está muito próxima dele. A elite é o Lula.

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