São Paulo- Há dez anos um banheiro público desativado, numa escadaria na Rua Cardeal Arcoverde, em Pinheiros, serve de lar para a família da manicure Simone de Oliveira, de 30 anos. Ela, o marido, Geraldo, de 36, e a filha Priscila Caren, de 11, dividem o cubículo de 1,5 por 2 metros.
''Queria uma casa e não tinha outra opção'', conta a manicure. Na rua movimentada, o barulho dos ônibus e carros é constante. A sensação de insegurança também. ''Já vimos tiroteios horríveis. Uma vez ficamos debaixo da cama, porque os tiros batiam na parede.''
Simone conta que o local antes era usado por traficantes para esconder drogas. Agora, porém, serve de teto para a família, que consegue guardar no banheirinho uma geladeira, um aparelho de TV, fogão a gás, cama, armário, telefone e um ventilador, ligado o tempo todo. Apesar do aparelho, o calor é insuportável.
O casal e a menina estão acostumados com a ''casa''. Já a mãe da manicure, Maria Virgulino de Oliveira, de 66 anos, que veio de Montes Claros, em Minas Gerais, para visitar a filha, estranha. Acostumada a lugares amplos, ela não consegue dormir uma noite inteira. ''É muito apertado. Só aguenta isso minha filha, que é uma lutadora.''
Em São Paulo desde os 13 anos, trazida para trabalhar com uma senhora, Simone jamais teve casa própria. O banheiro é tão apertado que, com a chegada de Maria, Geraldo teve de passar uns dias com parentes, em São Bernardo. Priscila Caren, que estuda na Escola Estadual Tenente José Maria Pinto, morria de vergonha de morar no banheiro. Hoje, de acordo com ela, Priscila, que sonha em virar modelo e atriz, aceita a condição da família. ''Explico para ela que tem muita gente morando embaixo do viaduto e não tem nem o que comer.'' Numa demonstração de solidariedade, Simone cede energia elétrica e água a uma moça que mora no outro banheiro da passarela.

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