Fama e fortuna
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 18 de novembro de 2002
Mário Eugênio Saturno 
Nossa sociedade é regida pelos valores associados à fama e à fortuna. Não qualquer fama, mas pode ser qualquer fortuna. Não importa se a fortuna adveio da usura, tráfico de drogas, golpes na Previdência, exploração dos necessitados, da miséria de milhões. Fortuna sem importar qual a procedência. Essa é a sociedade que temos hoje cuja religião oficial é a plutolatria, adoração ao dinheiro.
A maciça maioria dos nossos jovens e adultos são fascinados pelo poder vindo do dinheiro. Uma sociedade que valoriza a riqueza adquirida, não necessariamente pelo trabalho, está condenada. Trabalhar é difícil, já especular, traficar, enganar, iludir são maneiras fáceis de se adquirir fortunas. E, quando uma sociedade não valoriza a Ética e a Moral... Com o tempo, as pessoas não valorizam a família, a honestidade, a religião. O prazer fácil, as ligações superficiais tornam-se a moda praticada por quase todos. E ouse ser diferente!
Quando éramos crianças, aprendemos com os três porquinhos que o melhor, o que é bom (casa de tijolos) dá trabalho, é demorado, requer habilidade. Mas é o que detém o lobo mau. Aprendemos, também com o patinho feio que se procurarmos o nosso lugar, a nossa vocação, transformar-nos-emos em belos cisnes. Com Pedrinho (e o lobo) aprendemos que não se deve mentir (''cry wolf''), do contrário, quando dissermos a verdade ninguém nos acreditará. Na Igreja, aprendemos os Dez Mandamentos que nos dão (auto) confiança em um Ser Supremo infalível e a conviver socialmente.
Será que pais e professores não abandonaram a Igreja e deixaram de contar essas fábulas formadoras de caráter aos filhos e alunos? Será que não deixam demais as crianças expostas à televisão? Não ensinam as propagandas a chantagear os pais para comprar isto ou aquilo? E quantos pais não acreditam que dando o que não tiveram na infância estão fazendo algo maravilhoso pelos seus filhos? Muitos pais sobrecarregam-se de trabalho, esgotando-se, quando, na verdade, o que as crianças necessitam não são muitos brinquedos e roupas mas do tempo disponível, da atenção e do carinho.
A maioria dos jovens sofre de apatia à família, ao estudo, ao trabalho, à Igreja. E o culpado, sem dúvida alguma, é você que colaborou para a má educação de nossas crianças. O que fazer para reverter esse processo?
Diz-se que as palavras comovem e os exemplos arrastam. As crianças fazem o que você faz e ignoram o que você diz. Portanto, melhore seus exemplos e pare de contar papo. De nada adianta você dizer que é bom, honesto, trabalhador, esforçado, que superou tantas dificuldades. Se os olhos delas não virem isso, gabar-se pode ser irritante. Arrogância é um defeito imperdoável. Assim como uma falsa visão de si próprio.
A verdade é que a juventude não tem exemplos vivos para se espelharem e isso é grave. Enquanto cada um de nós esperarmos pelo outro para fazer aquilo que podemos. Antes de mandar seus filhos o respeitarem, dê exemplos respeitando quem está a sua volta. Ao invés de mandá-los à Igreja, vá você, depois os convide. Demonstre amor à família, não cobre.
Ser bom de papo é fácil, não? Ser bom de fato... Mas nada é melhor do que colher os bons frutos de uma boa semeadura.
Mário Eugênio Saturno é tecnologista sênior do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), professor da Faculdade de Filosofia Ciências e Letras de Catanduva (FAFICA) e congregado mariano


