Faltou Dizer!
Essa semana foi marcada pelo pronunciamento do Sindicato das Escolas Particulares de Londrina e Norte do Paraná (SINEPE) no qual mencionaram, sem dizer quem são, que 40% das escolas de educação infantil de nossa cidade funcionam sem a autorização do Núcleo Regional de Ensino e que por isso inspiram cuidados por parte dos pais.
Foi dito também, e está nos jornais para quem quiser conferir, que nossas crianças podem estar nas mãos de algozes, que adotando educação antiga baseada em castigo, repreensão e até mesmo uso de violência e em espaços físicos inadequados não oferecem segurança às crianças. Um verdadeiro horror! Só faltou dizer que os professores dessas escolas são comunistas e poderão devorar nossas criancinhas, como apregoava recente ditadura instalada em nosso País e que graças a Deus já faz parte de lembranças amargas.
Não resta dúvida que a denúncia é séria e necessita de maiores estudos dos órgãos competentes. Mas é preciso também que se verifique o que mais faltou dizer na entrevista coletiva para lançamento da campanha de alerta concedida aos órgãos de imprensa da cidade. Só tinha visto mobilização parecida, no dia em que o Sindicato dos Professores das Escolas Particulares de Londrina e Norte do Paraná (SINPRO) ouviu do Sindicato Patronal o lamento de que, embora as escolas particulares tivessem aumentado as mensalidades, não repassariam absolutamente nada aos professores como aumento salarial. Professores estes que na reportagem figuraram como responsáveis pelos altos preços dessas mesmas escolas.
Faltou dizer que escolas grandes de nossa cidade montam turmas de última hora para otimizar seus espaços e lucros, e depois de cometido os erros tentam culpar os alunos pela falta de organização da própria escola. Faltou dizer que os filhos de alguns professores não gozam de qualquer desconto para que seus filhos possam também usufruir uma qualidade mínima de ensino pago. Faltou, ainda, dizer que nossa cidade também possui cursos de graduação particulares não reconhecidos, assim como um mestrado particular igualmente não reconhecido pelo MEC, e que a própria instituição diz aos formandos que o curso de nada valeu, enquanto executa judicialmente um professor da casa que sofre problemas financeiros em razão dos baixos salários recebidos e não pode continuar a pagar pelo que simplesmente não existia.
Faltou também dizer que a concorrência de preços exercida pelas escolas sonegadoras de impostos, segundo a reportagem, trará benefícios aos pais cada vez mais empobrecidos e, consequentemente, perdas para as escolas já tradicionais que obviamente teriam de se adequar ao novo mercado sob sério risco de formarem prejuízos por falta de alunos em condições de arcar com seus altos preços.
Não vi em nenhum momento dizerem que investirão na formação de professores, pois é claro que não o farão, já que custa mais barato contratarem profissionais já preparados pelas universidades públicas, alguns até com TIDE (Tempo Integral de Dedicação Exclusiva), fazendo com que os pais paguem duas vezes, uma através dos impostos que sustentam o ensino público e outra ao pagar para as escolas particulares, que não precisam arcar com os custos de formação desses profissionais.
Faltou dizer que alguns donos de escolas particulares andam em caríssimos carros importados, enquanto o professor não tem outra alternativa que não o uso de carros velhos ou mesmo ônibus para os menos afortunados.
Faltou dizer que o Sindicato Patronal também não fará nada por essas escolas, mesmo sendo todas de sua base sindical, para que as mesmas possam fazer uma adequação aos regulamentos e normas do Núcleo Regional de Ensino, pois sua presença como alternativa de preço não é bem vinda.
Por fim, deixo a reflexão sobre o porque essas escolas não estiveram no Núcleo Regional de Ensino regularizando sua situação e a resposta pode ser a mesma dada pela reportagem do jornal, que procurou a diretora da instituição para ouvi-la sobre o assunto, não a tendo encontrado. Não me resta dúvidas que faltou e ainda falta dizer muita coisa em relação ao tema e todos devemos nos aprofundar na questão antes que devorem todas as nossas criancinhas.
- RICARDO PROCHET é administrador de empresas graduado pela FGV, com pós-graduação em Administração Finanças e Controladoria pela FGV, professor universitário, consultor e conselheiro de empresas.
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