Além de vítima da toxoplasmose, a população de Santa Isabel do Ivaí ainda tem que conviver com picuinhas políticas e com a falta de ações efetivas para o tratamento dos doentes. Nem o Ministério Público, órgão que a Constituição Federal assegura para a defesa de interesses coletivos, buscou até hoje ações para tutelar o direito das vítimas da doença. ''São inúmeras as denúncias feitas na promotoria, mas até agora não conseguimos nada, apenas a abertura de alguns inquéritos que continuam parados e nenhuma ação que obrigue o município a manter um atendimento específico, constante e adequado aos doentes'', informou o vereador Cézar Matos (PT).
''A doença atinge as gerações futuras da nossa cidade e poucas pessoas têm noção da grave realidade na qual vivemos'', afirmou Matos. Esta realidade inclui o fato de que mulheres atingidas pelo protozoário não podem engravidar porque a toxoplasmose causa aborto e má formação congênita do feto. Quando a toxoplasmose se manifesta no organismo humano, mesmo sendo tratado, o protozoário não é eliminado e pode permanecer em estado latente por muitos anos, se manifestando em baixas da defesa imunológica.
Após o auge do surto em janeiro de 2002, um bebê, vítima da forma congênita, morreu; uma mulher sofreu aborto e outras seis mulheres grávidas tiveram filhos com problemas oculares, outra consequência da doença, pois o protozoário também atinge o olho e causa lesões que podem levar à cegueira. Pesquisas e exames realizados por especialistas em toxoplasmose constataram que pelo menos 12% da população atingida pelo surto apresentou algum tipo de lesão nos olhos, o que aponta para a necessidade de um acompanhamento regular.
O vereador relata que o sistema de saúde de Santa Isabel do Ivaí até hoje não dispõe de um médico ginecologista contratado pelo município para o acompanhamento das mulheres, além da falta de consultas com oftalmologistas. ''Somente algumas consultas foram contratadas, mas não há um ginecologista à disposição das mulheres'', diz o vereador.
Segundo Matos, a prefeitura ampliou o único posto de saúde do município para transformá-lo em Pronto Atendimento (PA), mas não há nenhum tipo de previsão de recursos para colocá-lo em funcionamento. ''Não há dinheiro para a contratação de pessoal e compra de equipamentos e a obra está lá parada quando os recursos poderiam ter sido direcionados às consultas'', afirmou o vereador.
O prefeito Adão de Almeida Ramos admitiu à Folha que o município não dispõe de recursos próprios para o funcionamento do PA e nem o Governo do Estado garantiu qualquer verba para este fim. ''Estamos agora pleiteando recursos no Governo Federal'', disse o prefeito. Segundo Ramos, o custo de manutenção da saúde no município é elevado.

mockup